Dom Luciano José Cabral Duarte, foi um dos expoentes mais importantes
e inteligentes do clero conservador, inclusive no período em que a
CNBB esteve mais permeada pela influência do Concilio Vaticano II e das
Conferências Episcopais de Medelin e Puebla.
O que fez com que
fosse uma das vozes preferidas dos setores retrógrados e autoritários
das elites brasileiras para atacá-la. Nas décadas de 1970 e 1980, teve
uma coluna cativa no Jornal do Brasil, junto com Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, espaço utilizado constantemente para atacar a “infiltração comunista” na Igreja.
É um personagem que precisa ser mais pesquisado pela academia. Já há
quem faça isso, em um sentido de defesa do personagem. O que não é ruim,
o mal é permanecerem silenciadas, as diferentes vozes que sofreram os
efeitos do seu governo pastoral.
Com a sua morte, ocorrida no dia de ontem (29/05/2018), fica mais fácil a emergência destas vozes e sussurros. Quem se atreve? Afinal, “A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.” como afirmou o historiador Peter Burke
“Dom Luciano desarticulou as Escolas Radiofônicas do MEB, perseguiu
clérigos progressistas que se levantavam contra o regime, lutou até os
45 do segundo tempo para que a UFS tivesse uma estrutura fundacional com
possibilidade de cobrança de mensalidades, perseguiu estudantes,
concedia palestras no 28º Batalhão de Caçadores sobre as “ameaças
comunistas” no Brasil…“
Jornalista Henrique Maynart.
“Que o Senhor Jesus Cristo tenha compaixão e misericórdia de Dom Luciano Cabral Duarte e lhe lhe conceda o perdão pelas traições feitas ao Dom Távora, pela perseguição sem tréguas ao Bispo Profeta Dom José Brandão de Castro, pelos 11 padres franceses por ele denunciados e presos pelo exército, pelas professoras do MEB que foram presas e pelos jovens perseguidos pela ditadura.”
Sociólogo Hildebrando Maia
“Conheci
Dom Luciano pelos artigos no Jornal do Brasil, pois morei no Rio de Janeiro nas décadas de 1970 e 1980.
Ao chegar em Aracaju, nos meados de 1980, quando avistei a sua figura
imponente e de postura arrogante, percebi que pessoa e texto eram o
mesmo.”
Professor de História Zezito de Oliveira
José Cabral Duarte, como esse abaixo, podem ser acrescentados nos comentários.
“O Bispo da Terra” e as agruras dos camponeses de Dom Luciano: escrita biográfica e reinvenção de si
Resumo
tornou-se um dos mais proeminentes membros do clero brasileiro da
segunda metade do século XX, com uma ampla participação em instituições
educacionais e na gestão das políticas públicas voltadas para a
educação. Em decorrência de sua articulação com os governos da ditadura
civil-militar e posicionamento adverso a movimentos católicos como o da
Teologia da Libertação, levou a constituir uma representação de
religioso conservador. Neste artigo, discutiremos a trajetória
polissêmica do sacerdote a partir de seu envolvimento com os camponeses
da região da Cotinguiba nas ações de reforma agrária e problematizamos
as ações de elaboração biográfica na cristalização de sua imagem de
sujeito conservador e distante das causas sociais.
espionagem (1971-1980)”, de Paulo César Gomes Bezerra, historiador do
Departamento de Documentação e Pesquisa (DDP-FAN).
espionagem”, baseado na tese de mestrado na UFRJ do historiador Paulo
César Gomes Bezerra, que mostra como a repressão vigiava os bispos
católicos que faziam oposição ao regime.
O livro mostra o apoio da Igreja aos militares em 1964. Afinal, em
tempos de Guerra Fria, eles tinham um inimigo comum: o comunismo ateu.
“Em maio de 1964”, diz o historiador, “um manifesto assinado por 26
bispos da CNBB em linhas gerais agradecia aos militares por ‘salvarem’ o
país do perigo iminente do comunismo”.
Aliás, no dia do golpe, Dom Paulo Evaristo Arns, que terminou sendo um
dos heróis da resistência contra a ditadura, deslocou-se de Petrópolis,
RJ, onde morava, para abençoar a chegada das tropas golpistas do general
Mourão Filho.
As relações dos militares com a Igreja azedaram depois do AI-5, de 1968,
com o endurecimento do regime. “Ainda assim”, diz Paulo César, “em maio
de 1970 um texto da CNBB, em que a Igreja denunciava torturas nos
porões do regime, também criticava ações de violência que podiam ser
atribuídas à esquerda”.
Quatro meses depois, em setembro de 1970, Igreja e Estado trocaram de
mal para valer com a detenção por quatro horas de dom Aloísio
Lorscheider, secretário-geral da CNBB.
— Por um instante, a hierarquia da Igreja uniu-se contra o Estado. Até o
Papa Paulo VI deu apoio ao bispo — lembra o historiador.
Mesmo depois do, digamos, rompimento, ainda havia bispos que, isoladamente, davam apoio aos milicos.
O SNI registrou, em setembro de 1980, que o então arcebispo de Aracaju,
dom Luciano Cabral Duarte, denunciou ao núncio apostólico, dom Carmine
Rocco, a participação de Dom Hélder em ato, em Sergipe, no qual “teria
pregado a união de estudantes e camponeses para a derrubada da
ditadura”.
República Comunista do Nordeste
Aliás, Dom Hélder chegou a ser acusado pelo SNI de ajudar a “eclodir um
movimento separatista que teria como ponto de partida a região
Norte-Nordeste”.
Ah bom!”

