Todos os corruptos serão castigados? Lembrando o filme “Toda nudez será castigada”

da carta maior

Impeachment S.A.: negócio lucrativo quer varrer corrupção para baixo do tapete

Quem for às ruas no dia 15 vai
estar vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que
querem tirar o foco da lista de políticos da Lava Jato 

por Antonio Lassance


publicado
02/03/2015 20:07,


última modificação
02/03/2015 20:10

Marcelo Camargo/Folhapress

Nariz de palhaço

Quanto mais impeachment se torna um oba-oba, do tipo “atrás do trio elétrico…”, melhor para o negócio
Impeachment S.A.: uma empresa de capital aberto e
mente fechada. Que ninguém se engane ou se faça de desavisado. As
organizações Impeachment S.A. – uma sociedade mais ou menos anônima –
está aí não só para promover eventos, mas, sobretudo, para se
capitalizar.

Quem quiser ir às ruas no dia 15, com nariz de
palhaço e cartazes pró-impeachment, vai estar batendo o bumbo e
vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que querem
bombar o desgaste de um governo por razões nada republicanas.

Algumas
das organizações mais ativas na mobilização das manifestações do dia 15
de março são um negócio patrocinado pela oposição partidária e
empresarial, com os préstimos sempre valiosos do cartel midiático, que
dá uma boa força para a sua divulgação.

Tal e qual nos bons
tempos do golpismo dos anos 1950 e 1960, trabalhar pela derrubada de um
governo é, em parte, ideologia, mas tem seu lado ‘business’. Dá
dinheiro.

Os grupos que organizam os protestos e clamam pelo
impeachment começam como rede social, mas crescem com apoio partidário e
empresarial.

Nenhum desses grupos deixa de pedir, publicamente,
recursos para financiar seu ‘trabalho’ – seria melhor dizerem ‘seu
negócio’. Até aí, nada de mais.

Porém, o grosso das contribuições
que algumas dessas pessoas recebem não são públicas e nem de pessoas
que dão 5, 10, 100 reais. Hoje, a maior parte da grana que rola em prol
do impeachment de Dilma tem outra origem.

Empresários em pelo
menos três estados (São Paulo, Pernambuco e Paraná) relatam ter recebido
telefonemas pedindo dinheiro para a organização dos atos do dia 15. A
fonte da informação são advogados consultados para saber da legalidade
da doação e possíveis implicações jurídicas para as empresas.

Em
um dos casos, o pedido não foi feito diretamente por alguém ligado aos
perfis de redes sociais que convocam o ato, mas por um deputado de
oposição, com o seguinte argumento: “Precisamos ajudar esse pessoal que
está se mobilizando para tirar esses vagabundos do poder”.

O
curioso é que o deputado oposicionista faz parte do seleto grupo de
parlamentares que teve o privilégio de contar, entre seus financiadores
de campanha, com empresas citadas na Lava Jato. Portanto, pelo critério
da Impeachment S.A., o deputado amigo é, de fato, um honorável
vagabundo.

É bom lembrar que quase a metade dos nomes da
famigerada lista do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, estava
ligada às campanhas de Aécio ou Marina Silva

As empreiteiras
pegas na Operação Lava Jato doaram quase meio bilhão de reais aos
políticos e aos partidos com as maiores bancadas no Congresso, o que
inclui os de oposição, como PSDB e DEM. Será que alguém vai se lembrar
disso no dia 15?
Como o negócio funciona e prospera

A
Impeachment S.A. virou franquia. Uma pessoa ou um pequeno grupo monta um
perfil, sai à cata de adesões e seguidores e cria memes para serem
espalhadas na rede. Com alguma sorte, essa ‘produção’ se torna viral –
pronto, a fórmula de sucesso deu resultado.
Os grupos que organizam o
protesto do dia 15 são muitos. Cada estado tem um ativista ou grupo de
maior proeminência. Eles hoje disputam o mercado do protesto de forma
cada vez mais empresarial. Com naturalidade, eles são absolutamente
francos em dizer que o capitalismo é seu sonho de consumo. Qualquer
maneira de ganhar dinheiro vale a pena.

Dependendo da força de
adesão de cada perfil, o criador usa sua lista de seguidores, com ou sem
nariz de palhaço, como portfólio para negociar patrocínio privado.

Quanto
mais o impeachment se tornar um oba-oba, do tipo “atrás do trio
elétrico só não vai quem já morreu”, tanto melhor para o negócio de
derrubar a presidenta.

A busca de um mercado do protesto veio a
partir do momento em que esses mascates do impeachment bateram às portas
dos partidos, como o PSDB, o DEM e o PPS.
Pelo menos no caso de
Pernambuco, houve tentativas também junto ao PSB, cujo ex-candidato à
presidência, Eduardo Campos, também consta citado da delação de Paulo
Roberto Costa. O PSB hoje abriga, entre outros, ‘socialistas’ da estirpe
do antigo PFL, como os renomados Heráclito Fortes (PI) e Paulo
Bornhausen (SC).

Alguns dos ativistas da Impeachment S.A., de
espírito empreendedor mais aguçado, pegaram a lista de financiadores de
campanhas de políticos da oposição com os quais mantêm contato e foram
pedir ajuda para conseguir abrir portas em empresas dispostas a
financiar a campanha do impeachment.

Os políticos tucanos, ao que
parece, têm sido os mais empenhados em redirecionar os pedidos de
patrocínio privado para o universo das empresas.

Publicamente, só
para variar, os tucanos definiram, com o perdão ao vocábulo ‘definir’,
que apoiam o ato pró-impeachment, mas são contra o impeachment. Hein?
Precisamos de pelo menos uns dois minutos para entender o raciocínio e
pegar algum tucano pelo colarinho branco, escondido atrás de mais esse
muro.

Os tucanos querem o protesto, torcem pelo protesto, ajudam a
patrocinar o protesto, mas fingem que não têm nada a ver com isso. Faz
sentido – e ainda tem gente que acredita que eles realmente não
trabalham pelo impeachment.

Por que 15 de março?
A própria data do protesto foi calculada politicamente, pela Impeachment S.A., com um propósito evidente.

O
alvo do protesto é a presidenta Dilma Rousseff, convenhamos, justamente
no mês em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgará
a lista dos políticos envolvidos no escândalo. Mais exatamente, na
semana seguinte àquela em que a lista de políticos será tornada pública.

Os
revoltontos do dia 15 pedirão o impeachment de Dilma, que sequer
aparece citada na Lava Jato. Será que vão pedir também o impeachment do
senador Aécio Neves, cuja campanha recebeu doações das mesmas honoráveis
empreiteiras, diretamente para o comitê de campanha desse candidato?

Vão
pedir pelo menos o impeachment de Agripino Maia (DEM-RN), acusado de
receber R$ 1 milhão em propina? Delator por delator, Agripino tem o seu e
merece algum cartaz de algum revoltonto mais bem informado.

Irão
pedir a apuração rigorosa e a prisão dos envolvidos com o trensalão
tucano? Ou a falta d’água em São Paulo racionou também a memória e o
senso de moral e ética dos que se dizem fartos – principalmente depois
de seu repasto?

Irão eles pedir o impeachment dos parlamentares
do PMDB? Eles fazem parte do segundo maior partido da Câmara, o primeiro
no Senado, e seriam decisivos para a chance de impeachment. Só que, por
coincidência, estão entre os preferidos das empreiteiras na hora de
financiar campanhas.

Os revoltontos do dia 15 ainda não pararam
para pensar que querem um impeachment de Dilma a ser feito por um
Congresso cujo financiamento de campanha desenfreado deixa a maioria de
seus parlamentares abaixo de qualquer suspeita – se for para generalizar
o ‘argumento’ de quem vê Dilma como uma inimiga a ser banida.

Serão
esses, de fato, os que podem abrir a boca para falar em afastar a
presidenta eleita? Estranho. Não deveriam ser eles os primeiros alvos de
cassação?

Quem promove a campanha pelo impeachment está dando
sua contribuição voluntária ou patrocinada para tirar o foco dos
corruptos que de fato têm nome no cartório da Lava Jato – o que não é o
caso da presidenta.

Seria melhor, antes de falarem em impeachment
de uma presidenta eleita pelo voto de 54,5 milhões que os revoltontos
do dia 15 esperassem a lista de Janot e a usassem para escrever seus
cartazes.

Por que não o fazem? Talvez por que isso não seja lá um bom negócio.
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