É carnaval cidade!!

O Carnaval da Libertação na perspectiva de um monge

09/02/2015
MARCELO BARROS é um monge beneditino que une mística e política
(busca do bem comum), oração com a caminhada dos movimentos populares e
dos indígenas no Brasil, na América Latina e no mundo. É um dos
conferencistas mais solicitados aqui e fora do Brasil pois em tudo o que
fala imprime uma aura de espiritualidade e ao mesmo tempo de
engajamento para a transformação do mundo no sentido da justiça e da
paz. Esse artigo sobre o Carnaval da Libertação mostra bem seu espírito.
Reconhece a celebração da vida e ao mesmo tempo associa esta celebração
com a alegria espiritual que nos vem do encontro com Deus ou com a
Divindade, conhecida por muitos nomes. Vale a a pena ler este texto no
contexto do Carnaval que se aproxima. Lboff
***************

Em várias cidades brasileiras, já estamos em tempo de Carnaval. No
Rio de Janeiro, Olinda, Salvador e outras cidades tradicionais, os
blocos estão nas ruas e as pessoas superam as dores e angústias do
cotidiano através da dança, das brincadeiras e da alegria do Carnaval.
Ainda há pessoas e grupos que veem nisso mera alienação. Alguns grupos
religiosos condenam o mundanismo e julgam o Carnaval como produto do
diabo. Não há dúvidas de que o Capitalismo faz de tudo mercadoria. No
Carnaval, explora um erotismo simplesmente comercial. Fomenta o uso
exagerado de bebidas e mesmo de drogas. Tudo isso cria um circulo
vicioso com a violência urbana que explode em alguns fenômenos de massa
não bem canalizados. No entanto, apesar desses problemas, toda festa,
mesmo a mais aparentemente mundana, reúne pessoas em uma expressão de
alegria e tem, por isso, uma dimensão nobre e, podemos mesmo dizer:
espiritual.

De um modo ou de outro, todas as culturas valorizam a festa como
sinal e antecipação do pleno e definitivo encontro com a divindade.
Jesus afirmou que o reinado divino vem ao mundo, qual uma música
deliciosa que convida todos a dançarem. Ele se queixa de sua geração que
parece com pessoas que, mesmo ao som da música, não reagem e ficam
indiferentes (Lc 7, 31- 32). Ninguém deveria ficar apático diante dos
sinais do amor e da comunhão humana que tornam a vida, mesmo sofrida,
uma festa de alegria, inspirada pelo Espírito. Conforme o quarto
evangelho, Jesus começou a anunciar o reinado divino no mundo,
transformando água em vinho simplesmente para que não faltasse alegria
em uma festa de casamento (Jo 2).

As pessoas e comunidades marcam a vida pela cadência das festas. Cada
ano, o aniversário natalício recorda o dom da vida. Conquistas
importantes, como conclusão de um curso, obtenção de um novo trabalho e
casamentos são celebrados com festas. Todo país tem festas cívicas e
cada religião, festividades litúrgicas. O que caracteriza a festa é a
liberdade de brincar, o direito de subverter a rotina e de expressar
alegria e comunhão, através de uma comida gostosa, a música contagiante e
a dança que unifica corpo e espírito.

Na Bíblia, se conta que, quando a arca da aliança foi transferida das
montanhas para Jerusalém, “o rei Davi dançava alegremente”. Davi dançou
para agradecer a bênção divina sobre o povo. Vários salmos aludem à
dança como forma de oração. Apesar disso, a dança não é muito valorizada
nas liturgias. Nas sinagogas, o uso variou muito, de acordo com o
tempo. Em épocas mais recentes, principalmente em festas como a da
Simchá Torá, a festa da “alegria da Lei”, no nono dia depois da festa
das Tendas (Sucot), a dança é o rito central. Em um artigo na internet, o
rabino Nilton Bonder explica: “Nós dançamos com a Torá e não nos damos
conta como dançamos com a vida e de que a dança revela muito”.

A dança é
mais do que um método. É caminho de meditação interior e comunitária.
Indica abertura do ser humano a uma dimensão de transcendência. No
Brasil, as danças são ancestralmente praticadas pelas religiões
indígenas e afro-descendentes. Muitas vezes, além de ser uma forma de
orar com o corpo, servem também como instrumentos de cura e equilíbrio
para a vida.

As formas mais conhecidas de danças sagradas espalhadas pelo mundo
vêm do Oriente e são a Hatha Yoga, T´ai Chi e as danças do Dervixe na
tradição mística Sufi (muçulmana). Um dervixe disse ao escritor grego
Nikos Kazantzakis: “Bendizemos ao Senhor, dançando. A dança mata o ego e
uma vez que o ego é morto não há mais obstáculos que o impeçam de se
unir a Deus”.

Lamentavelmente ao se falar de dança sagrada, corre-se o risco de
separar o sagrado e o profano, como se houvesse uma dança santa e a
outra mundana e pervertida. É claro que, como toda atividade humana, a
dança também pode se tornar instrumentalizada em espetáculos de mau
gosto. Entretanto, se, em seu erotismo, ela é humana e humanizadora,
repõe as energias do amor em um equilíbrio unificador da pessoa e da
comunidade. Desse modo, toda dança é sinal da bênção divina e
instrumento de cura do corpo e do espírito. Tanto no Carnaval, como no
dia a dia, é importante valorizar os ritmos, músicas e danças de cada
cultura.

Nos anos 70, Chico Buarque compôs a melodia para o filme “Quando o
Carnaval chegar”, uma comédia musical de Cacá Diegues que tomava o
Carnaval como parábola da festa da libertação. Apesar de que superamos a
ditadura militar e, hoje, vivemos uma democracia formal, ainda há muito
para alcançarmos uma igualdade social e uma realidade de justiça que
signifique uma verdadeira libertação para todo o nosso povo. Por isso,
continua válida a esperança proposta nas imagens daquela música de
Chico, cantada no filme, junto com Maria Bethânia e Nara Leão: “Quem vê
assim, tão parado e distante, parece que eu nem sei sambar. Tou me
guardando pra quando o Carnaval chegar”. É bom que nos Carnavais que
passam, não deixemos de esperar e nos preparar para o Carnaval
definitivo, mais profundo e transformador da vida.

Carnaval no blog da Acão Cultural.. AQUI

Outros Olhares


Carnaval em comunidade
Giuliana Capello – 21/02/2012    

BLOGS |Gaiatos e Gaianos


Este deve ser o quinto carnaval que passo na ecovila e o primeiro com
direito a marchinhas, fantasias e muito pandeiro. Incrível, porque
estou mais para o pessoal que “é ruim da cabeça ou doente do pé”, mas
mesmo assim posso dizer que foi – está sendo – muito divertido.
Cada vez mais percebo que viver em comunidade requer abertura para olhar cara a cara nossos preconceitos e ilusões.
Sempre achei, nos meus sonhos mais remotos, que minha vida na ecovila
seria baseada em yoga, meditação, comida vegetariana e música suave com
toque oriental. E ponto, ou seja, imaginava que seria apenas isso. O
tempo, no entanto, tem me mostrado situações bem diferentes – e nem por
isso menos interessantes.
É verdade que muita gente na comunidade tem essa ideia de sossego,
introspecção e desenvolvimento do espírito. Mas isso não é regra nem
serve para todo mundo. Aprendi, nesses anos de convivência com gente de
histórias e origens diversas, que o mais gostoso é a diversidade,
as oscilações ou os ciclos, as surpresas, as frestas que abrem novos
mundos. Não existe linearidade nem predestinações. A vida por aqui pode,
sim, ser feita de humores, sol e chuva, mantras e samba-enredos. Por
que não?
O que você acha mais rico: uma plantação de eucalipto ou um pedacinho
da floresta amazônica? Se você ficou com a segunda opção é sinal de que
conhece os prazeres e as delícias da biodiversidade… Em grupo é assim.
Querer pasteurizar pessoas e encaixá-las todas no mesmo rótulo é
desgastante, inócuo, sem sentido.
Aos poucos, estou aprendendo a lidar com quem é diferente, com gente
que come carne, que sabe cantar dezenas de sambas e que guarda em casa
caixas e mais caixas de fantasias e apetrechos para brincar o carnaval.
Tempos atrás, algumas dessas características (especialmente a que se
refere à alimentação) geravam em mim um afastamento quase involuntário,
um pé atrás que me impedia de ir além e de conhecer um pouco mais de
perto essas pessoas. (Ainda acho que não comer carne, por exemplo, faz
parte do caminho de quem busca uma vida mais sustentável por várias
razões. Mas isso não pode virar motivo para eu me afastar de ninguém.)
Este feriado tem sido muito significativo para todos da ecovila,
tenho certeza. Todas as casas estão ocupadas pelas famílias e com
direito a hóspedes que, em geral, são os amigos da comunidade que ainda
não têm casa construída. Estamos todos envolvidos em atividades que
acontecem concomitantemente e que, vez e outra, têm o dom de unir todo o
grupo. Tem gente aproveitando o descanso para curtir a criançada no
camping instalado num quintal bem aconchegante; gente que se reúne para
participar de um curso de vitrofusão; gente que organiza projeção de
filme com bate-papo sobre agricultura na ecovila; gente que faz
churrasco com cerveja, samba e pandeiro; gente que sabe agregar pessoas e
que consegue – quase num passe de mágica – fazer surgir na comunidade
um verdadeiro bloco de carnaval; gente que aproveita o feriado para
pintar paredes, limpar a casa e sonhar com a obra terminada… É de gente
assim que eu me alimento e descubro o sentido da palavra entusiasmo.
E mais: saber que as casas têm sempre a porta aberta para receber
é, de longe, um dos valores de que mais gosto por aqui. Ainda que
existam diferenças, ainda que sejam diversos os altares, os times de
futebol e as visões políticas, a comunidade prefere o abraço, o riso, o
encontro, a lição que vem com o estranhamento. É óbvio que os espinhos
também estão lá e os conflitos deixam a gente de boca torta de vez em
quando. Mas nem assim posso dizer (de coração) que melhor seria morar
num apê e não saber o nome do vizinho ao lado.
Esse papo todo de ecologia, de ambientalismo, de sustentabilidade precisa ter bases fortes no afeto e nos laços que ligam as pessoas.
Este é o pilar central, o verdadeiro alicerce. Nossos maiores desafios
não são de ordem técnica ou tecnológica. Não somos pouco sustentáveis
por falta de equipamentos verdes que transformem poluição em combustível
limpo para nossos carros. Nem ficaremos mais ecológicos se pudermos
construir, um dia, cidades inteiras com os mais modernos recursos. A mudança toda começa de dentro para fora.
Pessoas com comportamentos e hábitos insustentáveis não se tornam mais
razoáveis com o planeta ao mudarem de endereço, sabe? É preciso algo
mais, algo que nos inspire, nos mobilize, algo que
alimente nossos sonhos e nos faça seguir em frente. Tal como num baile
de carnaval, a graça está no colorido e na possibilidade de vermos o
outro e nós mesmos com outros olhos.
Foto: Desculpem o efeito na imagem. Foi um cuidado para dificultar a descoberta das verdadeiras identidades… Sabe como é…        

Carnaval: que desejos te seduzem?


Festival Aho, 2012/13, em Ilha Comprida (SP): outro momento em que desejo não rima com poder

Festival Aho, 2012/13, em Ilha Comprida (SP): outro momento em que desejo não rima com poder

Celebrar corpo, consciência e prazer pode ser alternativa à cultura que reduz sexo a fetiche de egos e poderes

Por Katia Marko, editora da coluna Outro Viver | Imagem: Paco Antonino

Chegou o Carnaval. Momento tão esperado por muitos. Espaço para
soltar o freio, viver fantasias, desfrutar o prazer. Pacatos cidadãos
experimentam o sonho de virar reis e rainhas. Desejos inconscientes
escapam pela janela agora aberta com o consentimento social. Tudo vale
na busca do prazer.

O meu Carnaval, há alguns anos, tem sido na Comunidade Osho Rachana, onde promovemos um grupo chamado Carnawow.
Já está confirmada a participação de 70 pessoas para este ano. Serão
quatro dias de trabalho corporal, meditações, trilhas na natureza,
encontros, diversão e criatividade. Tudo para aumentar a capacidade de
curtir a vida. Pra começar, vamos “limpar o terreno”. Sessões de
bioenergética e meditações pra ajudar a soltar tensões e sentimentos
guardados e reconectar com a energia do corpo. No domingo, depois de
reconectar consigo mesmo, é a vez de encontrar o outro, no sentido mais
rico da palavra. Trabalhos terapêuticos que vão ajudar a recuperar a
confiança na amizade. Já na segunda-feira, é o espaço para a celebração e
o êxtase. O grupo é dividido para criar e apresentar duas escolas de
samba com direito a alas, bateria, carros alegóricos e o que mais a
imaginação permitir.  No último dia, é relaxar, curtir a natureza e
meditar.

Mesmo que todos nós busquemos o prazer, esta é uma palavra que evoca
sentimentos conflitantes. Por um lado esta associada com o que é “bom”.
Mas, a maioria das pessoas acharia desperdício uma vida devotada ao
prazer. Temos medo que o prazer nos leve a caminhos perigosos, onde
esqueceríamos deveres e obrigações, deixando que nosso espírito se
corrompesse pelo prazer descontrolado.

No livro Prazer, uma abordagem criativa da vida, o médico-psiquiatra
Alexander Lowen, explica que todos nós queremos que a vida seja mais do
que a luta pela sobrevivência, e deveria ser agradável, e sabemos que
todos têm amor a dar. “Mas quando o amor e a alegria desaparecem,
sonhamos com a felicidade e procuramos a diversão. Não conseguimos
perceber que o alicerce de uma vida alegre é o prazer que sentimos em
nossos corpos, e que sem essa vitalidade, ela se transforma na cruel
necessidade de sobrevivência, onde a ameaça de tragédia nunca está
ausente”.

TEXTO-MEIO

Na real, em nossa cultura, todos receiam o prazer. “Como a
cultura moderna é dirigida mais pelo ego do que pelo corpo, o poder se
transformou no principal valor, reduzindo o prazer a uma situação
secundária. A situação do homem moderno se assemelha à de Fausto que
vendeu a alma a Mefistófeles em troca de uma promessa que nunca poderá
ser cumprida. Apesar da promessa de prazer ser uma tentação do diabo, o
prazer não pode ser proporcionado pelo diabo”, diz Lowen.

Segundo ele, todos nós, como o Dr. Fausto, estamos prontos a aceitar
as tentações do demônio. Ele está dentro de cada um sob a forma de um
ego que nos acena com a realização de um desejo desde que o obedeçamos. A
personalidade dominada pelo ego é uma perversão diabólica da verdadeira
natureza humana. O ego não existe para ser mestre do corpo, mas sim seu
servo leal e obediente. “O corpo, ao contrário do ego, deseja prazer e
não poder. O prazer é a origem de todos os bons pensamentos e
sentimentos. Quem não tem prazer corporal se torna rancoroso, frustrado e
cheio de ódio.

O pensamento é distorcido e o potencial criativo se perde. A perda se
torna autodestrutiva. O prazer é a força criativa da vida. A única
força capaz de se opor à destrutividade em potencial do poder”.

Para Lowen, o prazer e a criatividade estão relacionados
dialeticamente. Sem prazer, não haverá criatividade. Sem uma atitude
criativa diante da vida não haverá prazer. “Essa dialética surge do fato
de ambos serem aspectos positivos da vida. A pessoa viva é sensível e
criativa. Através da sensibilidade coloca-se em harmonia com o prazer e
através do impulso criativo procura sua realização. O prazer na vida
encoraja a criatividade e a comunicação, e a criatividade aumenta o
prazer e a alegria de viver”.

Então, para vivermos plenamente o prazer e a criatividade temos que
mexer nas tensões do nosso corpo, respirar profundamente e expressar
nossas emoções. Essa é a proposta do Carnaval na comunidade em que moro:
prazer com consciência.


Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.
Para ler todos os seus textos publicados em Outras Palavras, clique aqui

O carnaval e a cultura do descartável

         
          O carnaval me fez
recordar do tema da cultura do descartável, que vigora em nossos dias. Nestes
dias, há quem esteja procurando muita bebida e sexo. Vive-se a ideia de que
“ninguém é de ninguém!” e quem for contra esta ideologia é considerado
ultrapassado e careta. Segundo esta ideologia, valores como respeito e
responsabilidade podem ser descartados. “Vamos beber muita cerveja e comer
muita mulher!”, gritava um jovem embriagado na Praça Sete, no centro de Belo
Horizonte. Expressões como esta não são ignoradas porque muita gente enxerga no
outro uma coisa a ser usada e descartada. O verbo “comer” relacionado à mulher
é a prova disso: desvinculado de qualquer sentimento nobre, há mulheres que se
permitem ser “comidas” por muitos homens. Estes as utilizam e, em seguida, as
descartam.

            Este problema não se restringe ao período do carnaval,
nem está exclusivamente ligado ao tema da sexualidade. Vamos, brevemente,
oferecer um olhar mais abrangente, analisando o tema nas relações interpessoais
(amizade, namoro e casamento), na economia de mercado capitalista e na
religião. Trata-se de um tema que precisa ser discutido pelas instituições família,
escola, igreja e estado, tendo em vista a humanização das pessoas e das
instituições. Para a necessária mudança de atitude, a mudança de mentalidade é
essencial. Por isso, tal discussão é sempre bem-vinda e deve ser cada vez mais
promovida e/ou incrementada. Claro que num curto espaço de um artigo breve não
abordaremos todas as facetas do problema, mas ofereceremos apenas algumas
provocações.

            Nas relações
interpessoais
está se tornando comportando normal o fato de uma pessoa
procurar a outra para simplesmente aproveitar-se dela, visando a satisfação de
seus próprios interesses. Quando estes são satisfeitos, aqueles que
contribuíram para tão vergonhosa situação são descartados. Neste sentido, não
há amizade, nem namoro, nem casamento, mas oportunidades que precisam ser
aproveitadas. Nestes três tipos de relações, o amor deveria ser o fundamento,
em vista da felicidade. As pessoas que se aproveitam das outras nestas relações
costumam falar e demonstrar amor, mas tudo não passa de uma mentira
diabolicamente elaborada com belas palavras, presentes e gestos de carinho que
escondem as reais intenções.

            Desse modo, quando conseguem o que realmente querem, o
outro é descartado com requintes de frieza, rejeição e indiferença. Quem
descartou trata o outro como se este estivesse morrido. Como este outro não tem
mais nada a oferecer, então é tratado com desprezo, caindo no esquecimento. Por
parte de quem desprezou não há sofrimento porque não existia amor. Como aquele
que foi desprezado não passava de uma coisa, então não há nenhum sentimento no
ato de descartar. Acontece como quando alguém utiliza um copo descartável e
depois joga fora. Não há nenhum vínculo afetivo entre o copo e a pessoa porque
o copo é um mero meio para a satisfação da sede de água. Quando não há amor, ao
descartar o outro, não há nenhum sentimento de perda. Não se perde nada, pois já
se ganhou o que se almejava.

            Isto explica porque pessoas frias são, geralmente,
perigosas. No silêncio de sua intimidade planejam formas eficientes para a
satisfação de seus interesses mesquinhos. Assim, demonstram quem realmente são:
egoístas, individualistas, materialistas e, naturalmente, golpistas. Elas
desconhecem o verdadeiro valor e sentido do amor, da solidariedade, do perdão,
do encontro com o outro, da alegria e da reciprocidade. Interiormente, costumam
ser angustiadas, ansiosas, ressentidas, rancorosas porque suas consciências não
as deixam em paz. Elas sabem que estão equivocadas, que trilham um caminho que
não traz paz de espírito nem salvação. 
Quando
descobertas em suas tramas, geralmente, são abandonadas no seu isolamento e na
sua falta de amor. Sofrem bastante, mas não o suficiente para renunciarem ao
egoísmo que as tornam insensíveis. Para estas pessoas, os problemas do mundo
não lhes interessam, pois estão preocupadas consigo mesmas, com o próprio
bem-estar. “Não quero saber de nada nem de ninguém! O que quero é ser feliz!”:
esta é a lógica que norteia suas vidas.  Nesta
lógica não há espaço para o amor a Deus e ao próximo. Este é um dos fatores que
explicam porque muitas amizades, namoros e casamentos não duram: as pessoas
renunciam ao amor, aderindo à satisfação de seus próprios interesses, vivendo a
cultura do descartável.

            Na economia de
mercado capitalista
, a pessoa valorizada é aquela que consome. Quem não
consome não tem valor nenhum. As pessoas são tratadas como meros destinatários
de serviços e produtos a serem consumidos. O mercado cria necessidades para
seus destinatários. O lucro é a meta. Tudo é calculado ao infinito. Deve-se
consumir, desenfreadamente. Tudo é produzido para durar pouco. Para não ser
excluído é necessário estar na moda. Esta dita o figurino do momento. Aparece a
ditadura do corpo perfeito. O mercado dita o que as pessoas devem comer,
vestir, calçar etc. A ideologia de mercado ensina até a maneira de pensar e de
ser. Direta e indiretamente, através da mídia, que veicula a propaganda, as
pessoas são aliciadas a viverem da maneira como manda o mercado. Todos tendem a
fazer e consumir as mesmas coisas. Isto gera uma falsa alegria, um gozo
passageiro, que quando passa, dar lugar ao vazio.

            O mercado ensina que além das mercadorias, as pessoas
também são coisas, objetos de consumo. Mulheres e homens podem ser comprados e
vendidos para ser consumidos. Trata-se da sexualidade mercadológica. O corpo
humano, principalmente o feminino, é utilizado para atrair e despertar o desejo
dos consumidores. O mercado trabalha em função dos desejos das pessoas,
manipulando-os, inteligentemente. As pessoas consomem ao sentir vontade e esta
está ligada ao desejo. Dominada pelo desejo, a vontade perde seu controle. Explora-se,
demasiadamente, os sentidos humanos, especialmente a visão e o paladar. Descontroladas,
as pessoas se endividam, mas isto não lhes é motivo de preocupação porque o que
importa é consumir. O mercado as convence de que viver endividado é normal, o
anormal é não viver consumindo. Aqui não estamos nos referindo à satisfação das
necessidades básicas, mas ao consumo do supérfluo, do desnecessário.

            Tudo o que o mercado produz atualmente tem curta
durabilidade porque tudo é produzido para ser jogado no lixo em pouco tempo.
Nunca se produziu tanto lixo na história da humanidade como em nossos dias. O
meio ambiente não suporta mais tanto lixo! Isto tem provocado um desastroso
desequilíbrio na natureza, mas, geralmente, as pessoas não estão preocupadas
com isso. O discurso sobre a proteção ao meio ambiente costuma ser desprezado
pela maioria. Esta pensa que a natureza é inesgotável, que suporta a sede
insaciável do ser humano dominado pelo capitalismo selvagem. O cuidado pela
natureza é descartado. Apesar da crise de escassez de água, atualmente vivida
no Brasil, a maioria das pessoas não está dando a mínima atenção ao necessário
cuidado para com a natureza, mãe e mestra da vida.

            Por fim, consideremos o tema da cultura do descartável na religião. Como estamos no Brasil, e
a maioria do nosso povo se declara cristã, então nossas considerações se
referem, especialmente, aos católicos e aos não-católicos, também conhecidos
como “evangélicos”, terminologia não muito correta quando assistimos a
determinados abusos em nome do Evangelho. Evangélica é a pessoa que vive de
acordo com o Evangelho de Jesus. Por isso, considerar evangélicos todos os
não-católicos é correr certo risco. Certamente, há entre muitos aqueles que, de
fato, são evangélicos. Afinal de contas, como ocorre a cultura do descartável
na religião? Neste quesito, sintam-se contemplados os demais crentes de outras
religiões. Por incrível que pareça, este último quesito de nossas meditações é
mais complexo do que os demais porque envolve o tema da fé e da transcendência.
Portanto, por mais que queiramos esgotá-lo, ficará, como sempre, espaço para
maiores desdobramentos.

            A função precípua da religião é a de religar o ser humano
a Deus. No Cristianismo, este Deus se revelou na pessoa de Jesus de Nazaré. Não
é um desconhecido, oculto nas alturas dos céus, mas é o Emanuel, Deus que
permanece conosco. O seguimento de Jesus se encontra no centro da genuína
espiritualidade cristã e, assim, a religião é chamada a oferecer às pessoas a
oportunidade de fazerem uma experiência com Deus. Esta experiência não é algo
ligado a um sentimento de bem-estar momentâneo. O Cristianismo propõe outra
coisa, que é permanente: o seguimento de Jesus de Nazaré. Este seguimento
constrói o Reino de Deus. Aqui está o que podemos chamar de núcleo fundamental
da fé cristã e do Evangelho de Jesus. Trata-se do essencial.

            Ocultando o essencial, a religião tende a oferecer outras
coisas, e não a proposta de Jesus. Com o surgimento do neopentecostalismo,
salvo exceções, apareceu a Teologia da Prosperidade com suas promessas de
sucesso e bem-estar. Criou-se a religião voltada para o bem-estar econômico e
espiritual. Deus é tratado como fonte de bênçãos, curas e bens materiais. Prega-se
a ideia de que aquele que crê recebe tudo de Deus. A fé é fonte de prosperidade.
A religião é transformada numa agência de milagres. As pessoas acorrem à ela
para encontrarem soluções eficazes para seus problemas materiais e espirituais.
Não se estimula nem se promove um autêntico encontro com Deus. Não há
conversão, mas um negócio com Deus. Quando encontram a “solução” para seus
problemas, geralmente Deus é descartado porque é tratado como o “tapa-buracos”,
o suporte, a fonte de bênçãos e de bens.

            Assim como no mercado financeiro, o mercado religioso
lida com o imediatismo. Deus tem que se submeter aos desejos das pessoas e tem
que socorrê-las no exato momento que elas querem. Geralmente, elas não procuram
conhecer e viver a vontade de Deus, mas impõem a própria vontade. Deus não é
livre nem libertador. Ele não tem escolha. A única alternativa que lhe resta é
operar o milagre sem demora. Prega-se que o tamanho da graça está ligado à
quantidade financeira da oferta dada às Igrejas. A generosidade divina está
condicionada à oferta. Quanto maior a oferta, maior a graça! Promove-se chantagens
de toda ordem para incutir essa ideologia na cabeça das pessoas e tudo é feito
com tanta emoção que elas passam a acreditar que realmente Deus age dessa
forma.
A
manipulação de inúmeras passagens bíblicas ajuda os pastores mercenários a
terem êxito no seu negócio. Milhões de pessoas não esclarecidas caem nesse tipo
de golpe em nome da fé. Na relação entre povo e pastores, e entre Deus e o povo
acontece a cultura do descartável. Neste falso Cristianismo não há comunidade
nem povo de Deus, mas investimento financeiro em vista do sucesso. As pessoas
entram nos templos religiosos como se estivessem entrando no shopping: querem consumir, comprar
bênçãos, fazer um negócio com Deus, satisfazer seus desejos.

Não
adoram o Deus e Pai de Jesus, mas criam um ídolo, praticando, assim, o
gravíssimo pecado da idolatria. Demônios e dinheiro são as duas palavras que
mais aparecem na pregação dos pastores. Não há nada de divino, tudo é
profanamente pensado e realizado, em vista da grandiosa arrecadação financeira.
O mercado religioso faz circular muito dinheiro. Este é abundante, enquanto que
a caridade praticamente não existe, salvo louváveis exceções. Este não é um
problema exclusivo de inúmeras denominações religiosas neopentecostais, mas
também de alguns segmentos das Igrejas cristãs tradicionais.

Para
concluir, um pensamento para resumir estas breves considerações: enquanto
cristãos, precisamos redescobrir a centralidade do Evangelho de Jesus, que é o
amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Amar como Jesus
amou: na gratuidade, na generosidade, na alegria e na liberdade. Somente assim
a cultura do descartável poderá ser vencida. O amor vence o egoísmo e a
indiferença. Amar de verdade é cuidar do outro, assumir a responsabilidade para
com ele.

Na
cultura do descartável ninguém cuida de ninguém e ninguém é responsável por
nada. Relega-se ao destino, à má sorte e ao acaso os males que afetam a
humanidade. Precisamos recuperar o encontro com o rosto do outro, rosto que
interpela, que revela, que convida para o amor. Somente assim, aprenderemos a
sermos mais tolerantes e pacientes diante das falhas do outro, mais humildes e
atentos às necessidades que surgem. Enfim, descobriremos que outro mundo é
possível quando aprendermos, de fato, a sermos fraternos. O amor nos faz irmãos
e liberta-nos de todo mal, nos humaniza e nos salva.

Tiago
de França
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