JORNAL DA CIDADE
Suyene Correa
Este é o primeiro filme sergipano a ser selecionado nesse tradicional
festival de cinema brasileiro- que acontece de 24 de setembro a 8 de
outubro- e sua exibição será no dia 30 de setembro. “Flores do Jardim”
competirá com produções nacionais e estrangeiras feitas por jovens
realizadores, não universitários, de até 18 anos.
Feito coletivamente por alunos do ensino fundamental da Escola Júlia
Teles durante a oficina de vídeo ministrada pela diretora Gabriela
Caldas, dentro do projeto “Inventar com a Diferença” promovido pela
Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República e
Universidade Federal Fluminense (UFF), o curta funciona como uma espécie
de desabafo de uma garotada que sofre com os constantes atos de
violência na comunidade e com o descaso da mídia, que explora de forma
sensacionalista, as mazelas da localidade socorrense.
“Flores do Jardim” inicia com os alunos recitando um trecho do belo
poema “No Caminho, com Maiakóvski” de Eduardo Alves da Costa. Em
seguida, Sheila, Levi, Camila, Vaneide, Maria Jamile, Luan, Cícero,
Hernades, Yasmin e outros estudantes falam de forma espontânea sobre seu
cotidiano no Conjunto Jardim, relatando os afazeres escolares, as
brincadeiras e a importância da “Júlia Teles” nas suas vidas.
Segundo Gabriela Caldas, que também foi a mediadora do projeto no
Estado, os jovens realizadores receberam com muita alegria a notícia
sobre a seleção do curta no Festival do Rio. Esse filme foi o resultado
de um trabalho desenvolvido durante três meses (entre março e junho) por
alunos do 6º ao 9º anos, da referida escola, dentro da oficina de
produção de vídeo, tendo o aval dos professores Vladimir da Silva
Guimarães (Português) e José de Oliveira (História).
“Em comunidades onde a questão da identidade era melhor definida e
trabalhada, os alunos eram mais espontâneos e lidavam melhor com a
câmera. Mas em outras localidades, como o caso do Conjunto Jardim, onde a
violência é uma constante, a autoestima dos garotos tinha que ser
estimulada. Mudar essa visão das crianças para com elas mesmas e o
outro, é um dos desafios do projeto. Acho que um exemplo do quanto
avançamos em relação a isso, é esse resultado conquistado pelos
estudantes da Escola Júlia Teles”, conta Caldas.
Para se ter uma ideia do drama desses jovens, a escola foi incendiada
em agosto de 2013, depois de ter sofrido diversas invasões noturnas.
Segundo o professor Vladimir Guimarães, por conta do incêndio criminoso,
a escola sofreu vários prejuízos. “O forro da escola recém-colocado
sofreu avaria, assim como mesas e cadeiras dos estudantes. Três salas
tiveram que ser reformadas, 50% do arquivo da escola foi perdido, enfim,
um transtorno para todos. O que nos deixou mais triste, foi saber que
tinha ex-alunos envolvidos com esse ato covarde”, diz.
Como se não bastasse isso, dois alunos da Escola Júlia Teles foram
assassinados no primeiro semestre, aumentando as estatísticas da
violência na comunidade e ajudando no reforço dos estereótipos tão
propagados pela mídia, de que no Conjunto Jardim só tem ladrão e
assassino. Para Vladimir Guimarães, o projeto “Inventar com a Diferença”
surgiu como um “mapa da mina” no que tange à possibilidade de mostrar o
outro lado da moeda.
“No primeiro momento, havia grande timidez por parte dos alunos em
relação às atividades, ao manuseio dos equipamentos. Eles estavam
acostumados aos selfies, às saídas das aulas para postar fotos no
banheiro, a gravação de brigas entre eles. O projeto ajudou na mudança
de foco. Eles começaram a sentir a necessidade de mostrar o outro lado
da moeda: de se mostrarem como adolescentes comuns e não de maneira
equivocada, que só fazia reforçar os estereótipos”.
Segundo o professor de Português, a oficina foi uma excelente
oportunidade para reforçar a autoestima dos estudantes. “O interesse
pelas demais atividades da escola aumentou com isso. A oficina tinha
sofrido evasões e, quando ela estava em 1/3, alunos novos ‘imploraram’
para participar e isso foi uma excelente propaganda do projeto e deles
mesmos. Eles começaram a sentir orgulho por fazer algo que deixaria
marcas positivas”, conclui.
Para o professor José de Oliveira, a conquista da seleção na Mostra
Geração/Festival Rio 2014, representa a afirmação de que vale a pena
desafiar o senso comum, alimentado por muitos programas de televisão e
de rádio, que diz “não é possível sair nada que preste do Conjunto
Jardim e de outras periferias que existem por esse Brasil afora”.
“Há muitas pessoas que não tem dimensão de como iniciativas como o
‘Inventar com a Diferença’ são necessárias e como os aspectos da
construção ou reconstrução da autoestima são importantes. Afinal, os
homens e mulheres não vivem somente do pão….Temos fome de beleza
também. Por muitos adultos não compreenderem isso, é que, sem querer,
acabam contribuindo para que esta fome de beleza seja saciada em fontes
poluídas ou estragadas, mesmo que aparentemente não demonstrem ser”.
Gabriela Caldas já garantiu a ida ao Festival do Rio, mas uma campanha
foi iniciada pelos professores envolvidos no projeto, para que dois
alunos marquem presença no dia da exibição de “Flores de Jardim” na
Mostra Geração. Tomara que consigam!!