Para o professor de neurociência da Universidade Columbia, usuários de drogas precisam de oportunidades e atenção, não de cadeia

Carl Hart: “O vício é efeito de um mundo doente, não a causa”

MARCELO MOURA


07/05/2014 07h00


– Atualizado em
07/05/2014 08h24

 

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CONSUMO RESPONSÁVEL Carl Hart, fotografado recentemente. Ele vem ao Brasil defender  a descriminalização das drogas (Foto: divulgação)
Carl Hart cresceu num bairro de negros em Miami, nos Estados Unidos.
Usou drogas, roubou e portou armas. Em iguais condições, amigos seus
foram presos e continuaram marginais. Hart não. Tornou-se professor de
neurociência da Universidade Columbia – é o primeiro americano negro
professor de ciências na instituição, fundada em 1754. Mostrou que
ratos, livres para consumir drogas, o fazem até morrer – mas deixam o
vício diante de outras recompensas. Hart veio ao Brasil divulgar o livro
Um preço muito alto (editora Zahar). Na obra, ele conta sua
história e afirma que o problema não é a liberdade de consumir drogas,
mas as condições sociais que levam muitos ao vício.

ÉPOCA – Apesar de haver tantos viciados, o senhor afirma que o consumo de drogas não é um problema. Por que não?
Carl Hart –
O uso de drogas não é o problema. O principal
problema é pensar por que um pequeno número de pessoas se entrega ao
consumo de drogas. Elas se entregam por ter distúrbios psiquiátricos,
podem ser depressivas, ansiosas, esquizofrênicas. Por ter alguma doença
mental que as leva às drogas como tentativa de lidar com isso. Essa é
uma possibilidade. Outros podem ser viciados por não ter opções melhores
na vida. Para eles, o uso de drogas parece a melhor opção. E há quem se
vicie porque não aprendeu as habilidades adequadas para lidar com o uso
de substâncias ou atividades potencialmente perigosas. Quando pensamos
sobre o uso de drogas, é importante entender que a maioria dos que usam
essas drogas – cocaína, maconha – não tem um problema. Se a maioria dos
que usam cocaína não tem um problema, o problema não são as drogas, mas
outra coisa.

ÉPOCA – Que outra coisa?
Hart –
Falta de dinheiro ou alternativas, que acabam por
tornar a droga uma opção melhor, distúrbios psiquiátricos ou imaturidade
para lidar com algo que, consumido em excesso, pode se tornar perigoso.
Esses aspectos devem ser tratados. Nenhum deles tem a ver com as drogas
em si.

>> A multiplicação das drogas

ÉPOCA – Em sua visão, viciados sofrem pela falta de
melhores oportunidades, de atenção à saúde mental e educação. Nada disso
tem a ver com as drogas. Mas liberar o consumo de entorpecentes não
resolveria as falhas da sociedade. Não poderia agravar o problema das
vítimas dessas falhas, ao facilitar o acesso às drogas?
Hart –
Portugal descriminalizou as drogas há 13 anos e não
agravou seus problemas. Pelo contrário, tornou-se um exemplo mundial de
reabilitação de viciados.


ÉPOCA – Em entrevista a ÉPOCA, João Goulão, responsável pela política antidrogas de Portugal, disse que o sucesso no tratamento de viciados
foi favorecido pelo tipo de droga popular no país, a heroína. É
possível substituir a heroína por drogas menos viciantes, numa terapia
gradual. Não há substituto para crack e cocaína, drogas populares no
Brasil.
Hart –
Quando oferecemos a droga substituta, também garantimos
ao viciado o acesso a tratamento médico e psicológico. É um programa.
Podemos fazer o mesmo com a cocaína, mas não fazemos.

ÉPOCA – Goulão admite que o uso de drogas em Portugal aumentou após a liberação. O senhor não teme o aumento do consumo?
Hart –
O consumo de álcool é legal no Brasil?

ÉPOCA – Sim.
Hart –
Então qual a resposta para sua pergunta?

ÉPOCA – O álcool é liberado no Brasil e, nem por isso, as consequências do consumo deixam de ser um problema social.
Hart  – 
Se o alcoolismo é um problema no Brasil, você diria que álcool deveria ser proibido?

ÉPOCA – Qual sua opinião?
Hart –
É claro que não diria. Porque a maioria das pessoas que
consomem álcool não tem nenhum problema. Esse é meu argumento. Sempre
haverá quem tenha problemas com atividades potencialmente perigosas,
como beber álcool, dirigir rápido demais, fazer sexo sem proteção ou
consumir drogas hoje ilícitas. É trabalho da sociedade descobrir como
diminuir o risco dessas atividades. Queiramos ou não, elas continuarão
aí. É estúpido apenas sugerir a proibição dessas atividades. Não
estaremos lidando com elas, nem agindo como uma sociedade responsável.

ÉPOCA – Dirigir rápido demais ou fazer sexo sem proteção são
atividades potencialmente perigosas, mas incapazes de provocar
dependência química, como ocorre com o uso de crack e cocaína. É
coerente defender a liberdade de consumo de substâncias capazes de
tolher a liberdade de escolha?
Hart –
Não há nenhuma droga que, uma vez experimentada, retire
de imediato a possibilidade de escolha. Esse é um conceito errado, um
mito. As drogas mais viciantes são nicotina e tabaco. Um em cada três
usuários de tabaco torna-se viciado. Um em cada cinco usuários de
heroína desenvolve o vício. O álcool também vicia cerca de 20% dos
usuários. A cocaína vicia menos, um em cada seis usuários, e só então
vem a maconha, capaz de viciar 9%.


“Os três últimos presidentes dos EUA usaram drogas. Livres, puderam servir ao país”

ÉPOCA – Não avaliamos o risco de uma droga apenas por seu poder
de causar dependência. O cigarro pode ser mais viciante que a cocaína,
mas afeta menos o comportamento do usuário.
Hart –
Se eu pudesse pegar carona com um motorista sob efeito
de álcool ou cocaína, escolheria o usuário de cocaína. O álcool deixa o
indivíduo menos vigilante e mais distraído, impede que ele dirija
direito. A cocaína, ao contrário, o deixa mais alerta. Nas Forças
Armadas dos Estados Unidos, pilotos de avião tomam anfetaminas para
ficar alertas em missões longas. A noção de que alguém não pode usar
drogas e cumprir tarefas é errada. Há quem use essas drogas o tempo todo
e cumpra as tarefas que tem de cumprir. Alguns tomam doses um pouco
altas. Mas, outra vez, isso está relacionado à educação para um consumo
seguro e responsável.


ÉPOCA – Como podemos educar para um consumo de drogas seguro e responsável?
Hart –
O primeiro passo é combater a desinformação sobre as drogas. Há muitos mitos, muita informação incorreta.

ÉPOCA – Por que, em sua opinião, o público é desinformado sobre as drogas?
Hart –
O público é informado sobre drogas pelas pessoas
erradas. Damos atenção exagerada a agentes de segurança pública, como
policiais. Eles não têm nenhuma instrução em farmacologia, psicologia ou
qualquer outra ciência comportamental. Damos atenção a políticos.
Interessa a eles propagar mitos. Ao culpar as drogas por todo tipo de
problema, eles se veem desobrigados de encontrar soluções para ajudar
quem precisa, como os mais pobres. Tudo o que os políticos têm a dizer
é: “Enfrentaremos as drogas”. Eles precisam, na verdade, enfrentar
problemas como moradia e desemprego. Se os políticos não lidam com essas
questões, é óbvio que a sociedade terá problemas. O vício em drogas é
efeito de um mundo doente. Não a causa.

ÉPOCA – O senhor defende a liberação ou a descriminalização do consumo de qualquer droga?
Hart –
Defendo a descriminalização. Quer dizer: não prender
usuários por porte de drogas e não registrar o consumo na  ficha
criminal. A polícia deixaria de prender e encarcerar gente que nada tem
de criminosa. O dinheiro gasto em perseguir e encarcerar usuários
poderia ser investido em iniciativas que realmente ajudem a sociedade.

ÉPOCA – O senhor não acha que usuários de drogas continuarão alvo de preconceito, com ou sem registro criminal?
Hart –
Os três últimos presidentes dos Estados Unidos usaram
drogas e nunca foram presos. Livres, conseguiram ser presidentes.
Estamos cercados de usuários de drogas respeitáveis, que colaboram para
uma sociedade melhor. Para aqueles que são presos, os horizontes
pessoais ficam reduzidos.

ÉPOCA – O senhor é o primeiro negro americano a ensinar
ciên­cias na Universidade Columbia. Como a falta de negros na comunidade
científica distorce as conclusões de pesquisas e a produção de
conhecimento?
Hart –
Não sei se a falta de negros na comunidade científica
afeta a produção de conhecimento mais do que qualquer outra coisa em
nossa sociedade. A questão racial influencia tudo. Sendo um cientista
negro, um dos aspectos que mais me chamam a atenção é o grande número de
negros presos por falta de informação sobre as drogas. Parece-me
antiético não dizer nada sobre a grande injustiça racial existente nas
prisões, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil. Isso me obriga a
denunciar.





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