Na noite contra o arbítrio, alertas para riscos presentes. E uma resposta a Neruda

Ditadura

Durante ato em São Paulo,
presidente da Comissão de Anistia diz que falar da memória é disputa
política. E integrante da Comissão da Verdade afirma que direita ‘tenta
se levantar’ porque tem medo

 “Temos vencido a batalha contra o medo de discutir o passado.
Esse negacionismo está caindo por terra. Falar de memória é instituir
uma disputa política, é dizer que a história não é mais só contada pelo
viés dos vencedores de então.”

 Paulo Abrão

por Vitor Nuzzi, da RBA


publicado
03/04/2014 09:40,


última modificação
03/04/2014 13:01 

Fonte: Rede Brasil Atual 


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Durante ato, foram exibidas imagens do ainda presidente João Goulart, reafirmando reformas de base
São Paulo – O monumento ao “nunca mais” acaba
de ser inaugurado diante do Teatro da Universidade Católica, o Tuca, da
PUC de São Paulo, na zona oeste da capital. É um dos 16 que serão
instalados ao longo do ano em projeto da Comissão de Anistia com
parceria do Instituto Alice – um foi posto perto do Clube Militar, no
Rio de Janeiro. Os manifestantes começam a rumar para o auditório,
cantarolando o refrão de Pra não Dizer que não Falei das Flores,
de Geraldo Vandré, o recluso que há dias apareceu em um

show de Joan
Baez. No ato para homenagear vítimas da ditadura, o presidente da
comissão e secretário nacional da Justiça, Paulo Abrão, chama a atenção
para o aspecto pedagógico das atividades que rememoram os 50 anos do
golpe. “Temos vencido a batalha contra o medo de discutir o passado.
Esse negacionismo está caindo por terra. Falar de memória é instituir
uma disputa política, é dizer que a história não é mais só contada pelo
viés dos vencedores de então.”
Já na área interna, no auditório do teatro que foi cenário de
incêndios criminosos, o mais famoso em 1984, e abrigou em 1978 o 1º
Congresso Nacional pela Anistia, a psicanalista Maria Rita Kehl,
integrante da Comissão Nacional da Verdade (CNV), declara incômodo e
conta que enviou carta ao jornal Folha de S. Paulo para comentar
reações de leitores pró-ditadura, alguns, de fato, de extrema-direita e
outros possivelmente desinformados, acredita. Faz menção a certa parcela
da direita “que estava quieta e se levantou” de forma ameaçadora. “É
claro que eles se levantam, porque estão com medo.”
Na mesma noite, passarão pelo palco do Tuca dois velhos conhecidos: o
poeta Thiago de Mello e o músico Sérgio Ricardo. Em meados dos anos
1970, ainda sob a ditadura, eles apresentaram o show Faz Escuro Mas Eu Canto (título de um livro de Thiago), com direção de Flávio Rangel. O músico dedilha o piano, o poeta declama Madrugada Camponesa: “Faz escuro (já nem tanto),/ vale a pena trabalhar. Faz escuro mas eu canto/ porque a manhã vai chegar”.

História

No início do ato, que levará três horas e terminará às 22h, um telão
exibe, na sequência, imagens do comício da Central, de 13 de março de
1964, quando o ainda presidente João Goulart reafirmava compromisso com
as reformas de base; áudio com o presidente do Senado, Auro de Moura
Andrade, na madrugada de 2 de abril, exatos 50 anos atrás, para declarar
vaga a Presidência da República, mesmo com Jango ainda em território
nacional; e imagens da posse do primeiro presidente-militar, marechal
Humberto de Alencar Castelo Branco, que no discurso diz que a “cura”
para os males da extrema-esquerda “não será o nascimento de um direita
reacionária. E promete entregar o cargo ao presidente eleito em 1º de
janeiro de 1966. Vaticínio errado, promessa não cumprida.
Neto de Jango, o publicitário João Alexandre Goulart se pergunta o
que poderia acontecer no Brasil se as reformas de base avançassem. E
lamenta que os livros de História tenham relegado o avô a uma rápida
passagem, como quis a ditadura. “O silêncio da morte foi a versão
oficial do governo”, diz, afirmando ainda que nada se contou sobre a
participação norte-americana no golpe, sobre entidades como Ipes e Ibad,
de apoio e divulgação de campanhas contra Jango, o governo e o “perigo”
comunista. “Em que página (dos livros) estava a Operação Brother Sam?”,
questiona João Alexandre, em referência ao plano dos Estados Unidos
para dar sustentação aos golpistas em caso de resistência dos
partidários do presidente.
Era sobre isso que falava, ainda na parte externa, o secretário Paulo
Abrão. “Quebramos o tabu, quebramos o medo e estamos dizendo que ainda
falta muita coisa. Muita gente não foi devidamente reparada, muitos
arquivos não foram abertos, muitos crimes não foram apurados. Ainda
falta, de nossa parte, criar um ambiente contra o ceticismo. A ditadura
criminalizou a política. Não podemos ter essa descrença na política”,
afirma, destacando a presença da juventude nos atos que marcam o
cinquentenário do golpe. “Ainda teremos muitos 50 anos: do AI-5, do
(Decreto) 477, de várias prisões arbitrárias, mortes e desaparecimentos.
Não aceitamos a tomada do poder pela força e a ruptura das
instituições. O Estado é que criou um aparato sistemático de destruição
da vida do outro.”

‘Eles se denunciam’

Lá dentro, Maria Rita Kehl também irá questionar a versão, largamente
difundida, de que a ditadura foi um “mal necessário” para evitar que o
Brasil se tornasse uma nova Cuba. “O golpe implantou uma ditadura de 21
anos para evitar que aqui virasse uma ditadura? Tem alguma coisa errada
aí. Inconscientemente, eles se denunciam”, diz a psicanalista. “O que
eles vieram evitar foi o que eles fizeram.” Também rebate a pecha de
comunista dada a Goulart. “O projeto de Jango não era do comunismo
radical, mas de reformas. E estamos atrasados até hoje. Na verdade, eles
vieram para evitar a distribuição de renda, de terra, dos meios de
produção.” Ela afirma ainda que a Operação Bandeirante (Oban), outro
aparato de repressão, “foi financiada por parte da elite paulistana”.
A essa altura, Maria Rita faz também uma crítica ao governo Dilma
Rousseff, que diz admirar sob outros aspectos, ao falar sobre obras de
grande porte. “Como se emancipação fosse Belo Monte”, comenta. Destaca o
“genocídio” de que camponeses e indígenas foram vítimas durante a
ditadura e acrescenta que o problema não acabou. “Infelizmente, essas
violações continuam hoje.” Não diretamente por agentes do Estado,
observa, mas com jagunços contratados por fazendeiros. “A coisa continua
de forma mais ou menos impune, principalmente em regiões isoladas.”
Por isso, ela diz considerar importante que a sociedade continue
ativa e alerta não só para preservar as conquistas, “mas para ir além”.
Especialmente quando sair o relatório final da Comissão da Verdade, “por
mais que não seja o que esperamos, ainda que não tenham aberto todos os
arquivos para nós”.

Índole

Criado no final de 1970, o Coro Luther King, que já havia
participado, dois dias antes, da “descomemoração” do golpe em
manifestação na sede do antigo DOI-Codi, também vai ao palco. Canta
inicialmente Viola Enluarada (Marcos e Paulo Sérgio Valle). “O
verso ‘O mesmo pé que dança o samba se for preciso vai lutar’ sintetiza a
índole do povo brasileiro”, afirma o ator Sérgio Mamberti, mestre de
cerimônias do evento.
O coro interpreta ainda Bella Ciao, um hino de resistência na Itália, e O Bêbado e a Equilibrista
(João Bosco e Aldir Blanc), hino não oficial da anistia brasileira,
imortalizado por Elis Regina. A “surpresa” anunciada por Mamberti não
surpreende tanto: A Internacional fecha a apresentação.

Mundo errado

Sérgio Ricardo também canta. Perseguição e O Sertão vai Virar Mar integram a trilha do filme Deus o Diabo na Terra do Sol,
dirigido por Glauber Rocha e lançado justamente em 1964, semanas antes
do golpe. “Espero que o senhor tenha tirado uma lição/ Que assim mal
dividido/ Esse mundo anda errado/ Que a terra é do homem/ Não é de Deus
nem do diabo.” Mais tarde, o cantor e o coral se reencontrarão para
reeditar Calabouço, feita em lembrança do estudante Edson Luís,
morto pela polícia durante protesto no Rio de Janeiro, em 1968, e
executada na igreja da Sé, em São Paulo, em 1973, durante missa em
homenagem a outro estudante, Alexandre Vannuchi, também assassinado.
Falam ainda representantes do PCdoB, PDT e PT, organizadores do ato,
por meio das fundações Maurício Grabois, Leonel Brizola e Perseu Abramo,
da União Nacional dos Estudantes (sua presidenta, Vic Barros, que
condena tentativas de “setores reacionários” do Congresso de se criar
uma lei antiterror), da CUT, da CTB e do MST. Críticas também à
concentração dos meios de comunicação em poucas mãos e pedidos pela
punição dos agentes do Estado responsáveis por torturas e outras graves
violações dos direitos humanos.
E uma pausa para ouvir uma história naqueles dias de 1964, contada
por Thiago de Mello, que no último domingo (30) completou 88 anos. Adido
cultural no Chile, governo de Eduardo Frei, ele é avisado pelo ministro
de Relações Exteriores, Gabriel Valdés, de que houve um golpe militar
no Brasil. Em 1º de abril de 1964, na casa de Santiago onde hoje
funciona a Fundação Pablo Neruda, ele recebe o próprio poeta chileno e o
então senador Salvador Allende, que leva um rádio de alta potência para
que possam escutar um pronunciamento de João Goulart.
Após ouvirem o discurso, Neruda, que estava lá em uma cadeira de balanço, diz ao amigo-irmão Thiago, que recorda: O
teu povo não vai sair às ruas para defender a liberdade. Isso jamais
acontecerá no Chile. Aqui, até as donas de casa sairão com as vassouras
.
“Fiquei magoado”, comenta o poeta brasileiro, com um sorriso. Já
Allende, “marinheiro viajado nos mares da política”, expõe temor, ao ver
nos acontecimentos no Brasil uma porta que se abre para uma sucessão de golpes na América Latina, da qual talvez o Chile não venha a escapar.
Thiago lembra então dos comícios pelas eleições diretas no Brasil, em
1984, nos últimos momentos do regime autoritário. E fala do amigo
Neruda, a quem chamava de Paulinho. “Ah, se o poeta estivesse vivo para
ver que esse povo sabe lutar… E caiu a ditadura.”
Poucos dias depois, ainda na missão diplomática, ele recebe um malote com os jornais e vê na primeira página do Correio da Manhã a
figura de Gregório Bezerra, líder das Ligas Camponesas, preso em
Pernambuco, “descalço, só de calção, o peito todo lanhado, o sangue
ainda escorrendo, puxado por uma corda”, descreve, recusando-se a citar o
nome do torturador (mais tarde, Expedito Solaney, da CUT, dirá que foi o
coronel Darcy Villock Viana, morto em 2012, aos 93 anos). “Este não é
meu pais”, murmura Thiago, que duas semanas depois verá, também no Correio,
a imagem de outro brasileiro sendo maltratado, o escritor Astrojildo
Pereira, “o apaixonado pela obra de Machado de Assis”. E recorda: “Tomei
sozinho a decisão de renunciar ao meu posto”.
Ele responde ao Ato Institucional número 1, o primeiro da ditadura, com um “ato institucional permanente”. Escreve o poema Os Estatutos do Homem.

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