história. E isso é sério. O cantor e compositor Marcelo Jeneci, que num
domingo de sol, 25/01/2014, reuniu 2 mil pessoas para um show surpresa
anunciado no próprio dia, alertava:
“Isso que a gente (essa geração) está fazendo aqui hoje é tão
importante quanto o que aconteceu no Festival da Record”, em comparação
com a geração sagrada da música brasileira que despontou nos anos 60
(Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Zé, Paulinho da Viola e
muitos outros). Não é um pensamento isolado. Em entrevista ao site
Scream & Yell, o qual sou editor, em 2010, o músico Romulo Fróes,
que esteve em Lisboa recentemente com seu projeto Passo Torto, adiantava
o pensamento de Jeneci:
“Acho (a cena atual) uma das melhores da história. Têm uns dez discos
que estão entre os melhores da discografia de todos os tempos”, opinava o
compositor. Já o editor da revista britânica Sound & Colours,
Russell Slater, também em entrevista ao Scream & Yell,
provocou: “Há algo realmente especial acontecendo que os brasileiros
realmente deveriam se orgulhar. Esqueça Caetano Veloso, João Gilberto e
Milton Nascimento: a nova geração está ai e ela é tão boa!”.
Algo neste momento sai de foco: se a música brasileira vive um de seus
períodos mais efervescentes, por que o próprio público brasileiro não
sabe disso? A resposta é bastante simples: porque o cenário fonográfico
brasileiro está absolutamente falido desde o começo deste século.
Gerenciado por senhores decrépitos que só sabem lembrar-se dos “velhos
tempos” e jovens “talentos” que estão mais interessados em marketing do
que em música, a nova cena vive a margem do grande público e do mercado.
Quer um exemplo? Na votação de Melhores de 2013 do Scream & Yell,
que reuniu 119 votantes (entre jornalistas, blogueiros e produtores
culturais), todos os discos na categoria Melhor Álbum Internacional eram
de selos renomados (Sony, Universal, Def Jam, Sub Pop, XL) enquanto a
categoria Melhor Álbum Brasileiro estampava QUATRO discos produzidos e
liberados para download gratuito pelos próprios artistas (Apanhador Só,
Boogarins, Bruno Souto e Bixiga 70), e outros lançados com apoios de
editais públicos (via empresas de cosméticos e telefonia) ou mesmo pelo
próprio artista, como é o caso de Emicida e seu selo Lab Fantasma:
nenhum disco ali presente era de uma grande gravadora, e isso é apenas a
ponta de um iceberg bastante profundo, e que representa o descaso com
que a própria indústria vem lidando com uma geração exemplar de músicos.
Agora, antes que alguém comece a chorar sobre a caipirinha derramada, é
melhor avisar: essa geração está aprendendo a se virar com o que tem, e
segue em frente. “Ainda é uma briga de Davi contra Golias, sendo a
indústria cultural o gigante que domina o mercado com práticas
indecentes – como a compra de espaços nas grandes mídias de rádio e
televisão –, e o cenário independente o pequeno guerreiro que precisa
fazer das tripas coração pra seguir existindo, sempre sufocado e menos
prolífico do que poderia ser”, opina Alexandre Kumpinski, da Apanhador
Só, em entrevista exclusiva ao Bodyspace. De Aracajú, no estado de
Sergipe, Alisson Coutto, da ótima banda Coutto Orchestra de Cabeça,
contemporiza: “Essa missa já haviam rezado para nós. Ser artista
independente há muito tempo já não é só tocar. É a velha regra do it
yourself, tem que fazer de tudo um pouco: administrar, produzir seus
próprios shows e tours, correr atrás de financiamento, fazer seus
cartazes, vender seus discos, alimentar seus canais de comunicação,
além, claro, de viver 24 horas em network”, explica.
Já o compositor Wado, cujo disco mais recente, Vazio Tropical foi
produzido por Marcelo Camelo (ex-Los Hermanos) e Fred Ferreira (Orelha
Negra), mesmo sem tocar em rádios e programas de TV, observa uma melhora
no cenário: “Está muito melhor (hoje) do que 10, 12 anos atrás. Quando
comecei, pouquíssima gente ouvia de fato a cena indie, ficava mais no
circuito da crítica. Hoje a internet está muito plena na sua função de
mídia, e chegamos fácil em 90 mil plays. Antigamente circulávamos mil ou
dois mil discos e era isso”, compara. A observação de Wado sobre a
função de propagadora que a internet exerce sobre a nova cena brasileira
é bastante pertinente. Ao contrário de países como os Estados Unidos,
Inglaterra ou mesmo Portugal (apesar do excelente trabalho da Optimus
Discos), a cena brasileira percebeu que, sem o auxilio da grande mídia
(rádios e TVs, principalmente, ambos reféns de criminosas “verbas
publicitárias”), precisaria chegar de alguma forma até seu público, e o
download gratuito tornou-se uma maneira bastante usual para alcançar
este intento – a ponto do Scream & Yell reunir 50 grandes discos brasileiros liberados para download gratuito em 2013, e ainda deixar quase o dobro disso de fora da lista final.
“Liberar o disco gratuitamente na internet faz com que um maior número
de pessoas conheça seu trabalho, e consequentemente aumente as
possibilidades de que essas pessoas compareçam a seu show”, opina Bruno
Souto, responsável por Estado de Nuvem, um dos lançamentos mais
elogiados no cenário brasileiro em 2013. “Precisamos que as pessoas
conheçam nosso trabalho e esta é uma das nossas principais ferramentas
de promoção que temos”, avalia Júlio Andrade, do duo The Baggios, que
disponibilizou em 2013 seu segundo disco, Sina, que poucos meses depois
foi lançado também em vinil. “Estamos vendendo bem (o vinil).
Possivelmente iremos fazer uma nova tiragem até o segundo semestre”,
comemora o guitarrista, mostrando que, muitas vezes, o download gratuito
pode auxiliar as vendas. Wado reforça: “(O download gratuito é)
Importantíssimo. Ter feito isso com meus últimos discos me deu um
tamanho de mercado que eu não tinha. Em qualquer lugar do Brasil que eu
toque, percebo grande parte do público cantando as músicas. Isso é
internet, e se isso está oficialmente no site, com um download fácil, é
metade do caminho”, justifica.
Enquanto centenas de artistas pré-fabricados por grandes gravadoras em
busca do lucro fácil tomam a programação das rádios como se fossem
anúncios de sabonete, a nova cena brasileira segue produzindo uma das
melhores músicas do planeta. Há um namoro natural com o passado, e muito
respeito, mas a sensação é de que se o repórter britânico Simon
Reynolds morasse no Brasil, ele nunca teria escrito um livro como
Retromania, porque teria a seu dispor uma nova música viva, vibrante e
pronta para se tornar popular. Neste ponto, Marcelo Jeneci, Romulo Fróes
e Russell Slater estavam certos ao comparar a atual geração com a dos
anos 60. Aquela geração (apoiada pela TV, pelas rádios e pelo próprio
público) enfrentou com inteligência a truculência de uma ditadura cruel,
e se tornou clássica. Já a atual geração se desdobra para enfrentar
outro inimigo, o capitalismo burro e sem escrúpulos, para sair de um
gueto que, ainda que mostre sinais de evolução, está longe do
reconhecimento merecido. E esse reconhecimento virá? Esperamos que sim.
Esperamos. Enquanto esse dia não chega, a nova música brasileira está a
sua disposição, a um toque do mouse. Não perca tempo.
Marcelo Costa