Momento intenso vivido foi, ontem ao fim da manhã, na catedral do Rio
de Janeiro, o encontro do Papa com os muitos milhares de jovens
argentinos vindos para a JMJ. O Papa falou naturalmente em espanhol. Eis
a tradução integral das suas palavras:
“Obrigado por estarem aqui
hoje, por terem vindo. Obrigado aos que estão aqui dentro e muito
obrigado aos que estão lá fora. Aos 30 mil, me dizem, que estão aí fora.
Daqui saúdo vocês que estão embaixo da chuva. Obrigado pelo gesto,
obrigado por estarem próximos, por terem vindo à Jornada Mundial da
Juventude. Sugeri ao doutor Gasbarri – que é quem organiza a minha
viagem – se teria um lugar onde pudesse me encontrar com vocês, e em
meio dia já tinha tudo preparado. Assim, quero agradecer publicamente ao
doutor Gasbarri por isso que conseguiu hoje.
“Queria dizer uma
coisa que é aquilo que espero, como consequência da Jornada Mundial da
Juventude. Espero barulho, que façamos barulho aqui no Rio, quero
barulho nas dioceses, quero que saiam por aí afora, quero que a Igreja
saia às ruas. Quero que nos defendamos de tudo que seja mundano,
instalação do que seja comodidade, do que seja clericalismo, do que seja
estarmos fechados em nós mesmos. As paróquias, os colégios, são para
sair e se não saem se convertem em uma ONG e a Igreja não pode ser uma
ONG. Que me perdoem os bispos e os sacerdotes se depois alguns vão
incomodar vocês. É um conselho.
“Obrigado pelo que podem fazer. Olha,
eu penso que neste momento, essa civilização mundial está com um
parafuso a menos, está com um parafuso a menos. Tal é o culto que faz ao
deus dinheiro que estamos presenciando uma filosofia e uma práxis de
exclusão dos rumos da vida que são as promessas. Certo, por quê?
Se
poderia pensar que poderia haver uma espécie de eutanásia escondida,
isso é dizer que não se cuida dos anciãos, mas também é uma eutanásia
cultural, não se os deixa falar, não se os deixa atuar. E exclusão dos
jovens, a percentagem que há de jovens sem trabalho, sem emprego, é
muito alta, e é uma generação que não tem a experiência da dignidade
ganhada pelo trabalho. Ou seja, esta civilização nos levou a excluir as
balizas que são o nosso futuro. Então, os jovens tem que sair, tem que
se fazer valer, os jovens que tem sair e lutar pelos valores, a lutar
por estes valores e os anciãos abram a boca, os idosos abram a boca,
ensinai-nos e transmitai-nos a sabedoria dos povos.
“No povo
argentino, eu peço de coração aos idosos, não claudiquem em ser a
reserva cultural de nosso povo que transmite a justiça, que transmite a
história, que transmite os valores, que transmite a memória do povo. E
vocês, por favor, não se coloquem contra os idosos, deixem-os falar,
escutem-os e levem adiante. Mas saibam que neste momento, vocês, os
jovens e os anciãos estão condenados ao mesmo destino, exclusão, mas não
se deixem excluir, está claro?
“Por isso acredito que tenham que
trabalhar. E a fé em Jesus Cristo não é enrolação, é algo muito sério. É
um escândalo que Deus se tenha feito um de nós, é um escândalo, e que
tenha morrido numa cruz, é um escândalo. O escândalo da cruz. A cruz
segue sendo um escândalo, mas é o único caminho seguro, aquele da cruz,
aquele de Jesus, a encarnação de Jesus.
“Por favor, não liquefaçam a
fé em Jesus Cristo. Ela foi liquefeita com laranjas, foi liquefeita com
maçã, foi liquefeita com banana, mas por favor, não tomem essa fé de
liquidificador. A fé é inteira e não se liquefaz. É a fé em Jesus. É a
fé no Filho de Deus feito homem, que me amou e morreu por mim. Então,
façam barulho. Cuidem dos extremos da população que são os idosos e os
jovens, não se deixem excluir e que não excluam os idosos e não
liquefaçam a fé em Jesus Cristo. As bem-aventuranças. O que temos que
fazer, Pai? Olha, leia as bem-aventuranças que te farão bem. E se queres
saber que coisa prática tens que fazer, leia Mateus 25, que é o
protocolo com o qual nos julgarão. Com essas duas coisas vocês tem o
plano de ação. As bem-aventuranças e Mateus 25. Não é preciso ler mais
nada. É o que peço a vocês de todo o coração. Agradeço a todos por essa
proximidade.
É” uma lástima que estejam enjaulados, mas digo uma
coisa a vocês. Eu, por momentos, sinto: que feio é estar enjaulados. Se
confesso de coração, compreendo vocês. Queria ter podido estar mais
perto de vocês mas compreendo que, por razão de ordem, não se pode.
“Obrigado
por estarem perto, obrigado por rezarem por mim, se os peço de coração,
necessito, necessito da oração de vocês, necessito muito. Obrigado por
isso. E, bem, vou dar a vocês a bênção e depois vamos abençoar a imagem
de Nossa Senhora que vai peregrinar por toda Argentina, e a cruz de São
Francisco, que vai peregrinar em missão. Mas não se esqueçam, façam
barulho, cuidem dos extremos da vida, os dois extremos da história dos
povos que são os idosos e os jovens, e não liquefaçam a fé. E agora
vamos rezar, para abençoar a imagem de Nossa Senhora e depois abençoar
vocês.
Leia também:
“Queridos jovens,
Viemos
hoje acompanhar Jesus no seu caminho de dor e de amor, o caminho da
Cruz, que é um dos momentos fortes da Jornada Mundial da Juventude. No
final do Ano Santo da Redenção, o Bem-aventurado João Paulo II quis
confiá-la a vocês, jovens,
dizendo-lhes: «Levai-a pelo mundo, como sinal do amor de Jesus pela
humanidade e anunciai a todos que só em Cristo morto e ressuscitado há
salvação e redenção» (Palavras aos jovens [22 de abril de 1984]:
Insegnamenti VII,1 (1984), 1105). A partir de então a Cruz percorreu
todos os continentes e atravessou os mais variados mundos da existência
humana, ficando quase que impregnada com as situações de vida de tantos
jovens que a viram e carregaram. Ninguém pode tocar a Cruz de Jesus sem
deixar algo de si mesmo nela e sem trazer algo da Cruz de Jesus para sua
própria vida. Nesta tarde, acompanhando o Senhor, queria que ressoassem
três perguntas nos seus corações: O que vocês terão deixado na Cruz,
queridos jovens brasileiros, nestes dois anos em que ela atravessou seu
imenso País? E o que terá deixado a Cruz de Jesus em cada um de vocês?
E, finalmente, o que esta Cruz ensina para a nossa vida?
Uma
antiga tradição da Igreja de Roma conta que o Apóstolo Pedro, saindo da
cidade para fugir da perseguição do Imperador Nero, viu que Jesus
caminhava na direção oposta e, admirado, lhe perguntou: «Para onde vais,
Senhor?». E a resposta de Jesus foi: «Vou a Roma para ser crucificado
outra vez». Naquele momento, Pedro entendeu que devia seguir o Senhor
com coragem até o fim, mas entendeu sobretudo que nunca estava sozinho
no caminho; com ele, sempre estava aquele Jesus que o amara até o ponto
de morrer na Cruz.
Pois
bem, Jesus com a sua cruz atravessa os nossos caminhos para carregar os
nossos medos, os nossos problemas, os nossos sofrimentos, mesmo os mais
profundos. Com a Cruz, Jesus se une ao silêncio das vítimas da
violência, que já não podem clamar, sobretudo os inocentes e indefesos;
nela Jesus se une às famílias que passam por dificuldades, que choram a
perda de seus filhos, ou que sofrem vendo-os presas de paraísos
artificiais como a droga; nela Jesus se une a todas as pessoas que
passam fome, num mundo que todos os dias joga fora toneladas de comida;
nela Jesus se une a quem é perseguido pela religião, pelas ideias, ou
simplesmente pela cor da pele; nela Jesus se une a tantos jovens que
perderam a confiança nas instituições políticas, por verem egoísmo e
corrupção, ou que perderam a fé na Igreja, e até mesmo em Deus, pela
incoerência de cristãos e de ministros do Evangelho. Na Cruz de Cristo,
está o sofrimento, o pecado do homem, o nosso também, e Ele acolhe tudo
com seus braços abertos, carrega nas suas costas as nossas cruzes e nos
diz: Coragem! Você não está sozinho a levá-la! Eu a levo com você. Eu
venci a morte e vim para lhe dar esperança, dar-lhe vida (cf. Jo 3,16).
E
assim podemos responder à segunda pregunta: o que foi que a Cruz deixou
naqueles que a viram, naqueles que a tocaram? O que deixa em cada um de
nós? Deixa um bem que ninguém mais pode nos dar: a certeza do amor
inabalável de Deus por nós. Um amor tão grande que entra no nosso pecado
e o perdoa, entra no nosso sofrimento e nos dá a força para poder
levá-lo, entra também na morte para derrotá-la e nos salvar.
Na
Cruz de Cristo, está todo o amor de Deus, a sua imensa misericórdia. E
este é um amor em que podemos confiar, em que podemos crer. Queridos
jovens, confiemos em Jesus, abandonemo-nos totalmente a Ele (cf. Carta
enc. Lumen fidei, 16)! Só em Cristo morto e ressuscitado encontramos
salvação e redenção. Com Ele, o mal, o sofrimento e a morte não têm a
última palavra, porque Ele nos dá a esperança e a vida: transformou a
Cruz, de instrumento de ódio, de derrota, de morte, em sinal de amor, de
vitória e de vida.
O
primeiro nome dado ao Brasil foi justamente o de «Terra de Santa Cruz».
A Cruz de Cristo foi plantada não só na praia, há mais de cinco
séculos, mas também na história, no coração e na vida do povo brasileiro
e não só: o Cristo sofredor, sentimo-lo próximo, como um de nós que
compartilha o nosso caminho até o final. Não há cruz, pequena ou grande,
da nossa vida que o Senhor não venha compartilhar conosco.
Mas
a Cruz de Cristo também nos convida a deixar-nos contagiar por este
amor; ensina-nos, pois, a olhar sempre para o outro com misericórdia e
amor, sobretudo quem sofre, quem tem necessidade de ajuda, quem espera
uma palavra, um gesto; ensina-nos a sair de nós mesmos para ir ao
encontro destas pessoas e lhes estender a mão. Tantos rostos
acompanharam Jesus no seu caminho até a Cruz: Pilatos, o Cireneu, Maria,
as mulheres… Também nós diante dos demais podemos ser como Pilatos
que não teve a coragem de ir contra a corrente para salvar a vida de
Jesus, lavando-se as mãos. Queridos amigos, a Cruz de Cristo nos ensina a
ser como o Cireneu, que ajuda Jesus levar aquele madeiro pesado, como
Maria e as outras mulheres, que não tiveram medo de acompanhar Jesus até
o final, com amor, com ternura. E você como é? Como Pilatos, como o
Cireneu, como Maria?
Queridos
jovens, levamos as nossas alegrias, os nossos sofrimentos, os nossos
fracassos para a Cruz de Cristo; encontraremos um Coração aberto que nos
compreende, perdoa, ama e pede para levar este mesmo amor para a nossa
vida, para amar cada irmão e irmã com este mesmo amor. Assim seja!”