Entrevista
Teatro, cultura deve ter destaque nas transformações do país. Nesta
segunda, ato no Oficina de Zé Celso trata da questão
reflexão sobre as funções da cultura e seus impactos dentro da
sociedade brasileira. O presidente do Instituto Internacional de Teatro
(filiado à Unesco), Ney Piacentini, que participa da organização do ato,
fala a CartaCapital da organização da classe cultural no Brasil e
de como os artistas precisam de posicionar com os trabalhadores nas
lutas que tomam às ruas. “O artista é um trabalhador como qualquer um. A
cultura precisa se alinhar ao povo, porque o povo é a vanguarda de
qualquer sociedade”, diz ele. Membro do Conselho da Cidade de São Paulo,
Piacentini fala da posição da cultura diante do movimento pelo passe
livre e nas suas pautas específicas, como a revisão da Lei Rouanet.
O ato público acontece às 20h, no Teatro Oficina, que fica na Rua Jaceguai, 520, Bela
Vista – São Paulo, SP. Também participam da organização o Centro ITI
Brasil (Instituto Internacional de Teatro ligado a Unesco), Associação
Brasileira de Documentaristas (ABD), Cooperativa Paulista de Música, além das companhias teatrais Antropofágica e Ocamorana.
CC: O ato de segunda-feira é uma proposta de
reflexão para o papel da cultura dentro da sociedade brasileira. Como
você vê esse papel?
NP: A cultura está contribuindo de forma consistente
neste processo. Sou conselheiro da cidade, assim como outras pessoas
ligadas à cultura como o [ator e presidente da Cooperativa Paulista de Teatro] Zé Celso, o [jornalista] Eugênio Bucci e o [filósofo]
Vladimir Safatle. Participamos ativamente de todos os debates, desde o
início da discussão por melhorias no transporte público. Queremos
amalgamar o conjunto cultural para estar presente. Temos pensamentos
diferentes a alguns setores da sociedade. Não achamos que a sociedade
está só insatisfeita, mas que ela evoluiu nas últimas décadas de modo a
acreditar que pode ir às ruas reclamar seus direitos. Eles querem
cidadania. Eles pagam seus impostos, mas em qualquer país decente do
mundo as pessoas pagam impostos. A nossa educação virou universal. O
nosso voto eleitoral é um padrão mundial. Então, o cidadão comum quer é
que os políticos respondam ao seu direito de cidadania. E nós estamos
querendo reunir o mundo da cultura para se alinhar às linhas
progressistas atuando no Brasil.
CC: Como a cultura está posta no cenário político
atual? As políticas públicas para a cultura estão marginalizadas diante
das outras demandas?
NP: Ela evoluiu muito. A gente não pode negar que a
cultura entrou na cesta básica do brasileiro. Mas ela ainda é uma
migalha e ainda se tem uma visão de cultura como um artigo supérfluo, de
luxo. Precisamos entender que, se tivermos uma cultura sólida, as
pessoas serão mais saudáveis e economizarão em remédios e cirurgias, os
professores vão se estressar menos em sala de aula, a marginalidade
pode cair – o jovem do Morro do Vidigal que faz parte do “Nós do Morro”
não está ligado ao tráfico. A economia da cultura, para nós, é isso. A
ONU diz que pra cada dólar investido no futebol, voltam cinco.
Acreditamos que o cálculo na cultura é o mesmo. Podemos contribuir para o
PIB de maneira pesada. Não com dividendos financeiros do mercado
cultural. Para nós, isso é uma ponta do processo. Não
podemos nos ater ao entretenimento baseado no mercado cinematográfico do
hemisfério norte e em uma produção nacional baseada na Globo Filmes.
Quando um grupo de Belo Horizonte faz uma apresentação de rua pra duas
mil pessoas gratuitamente, a criança, o adolescente e o adulto que vê
aquilo sai transformado dali. É a cultura como mediadora e interlocutora
das emoções, dos sentimentos e da tolerância. Ela atravessa toda a
sociedade.
CC: De que maneira você acha que a cultura pode intervir nas manifestações populares?
NP: Nesse processo, a cultura pode se alinhar às
mobilizações. Nossa proposta para segunda-feira é refletir sobre isso:
como podemos nos alinhar? A gente ainda não disse a que veio. Podemos
nos alinhar, por exemplo, de maneira a promover expressões artísticas
nos atos. Transformar as manifestações, que já são pacíficas, em algo
estético. Pode ser que surja uma proposta da cultura para o fundo social
do pré-sal, afinal, o pré-sal é uma riqueza do solo brasileiro e
pertence a todos nós. Podemos levantar a bandeira da reforma da Lei
Rouanet, pedir para que o que for para os Itaús Culturais vá no mesmo
valor federativo para o Fundo Nacional da Cultura, porque a reforma tem
que ser na base. Vivemos um momento histórico para o Brasil. O
artista é um trabalhador como qualquer um. A cultura precisa se alinhar
ao povo, porque o povo é a vanguarda de qualquer sociedade.
CC: Como você vê a atuação do Ministério da Cultura?
NP: A atuação do Ministério da Cultura é pífia,
quase nula. Já no governo Dilma, a gestão da Ana de Holanda foi
sofrível. A melhor sugestão do Gilberto Gil e do governo Lula foram os
pontos de cultura e ela deixou de olhar pra isso. Ao tentar regularizar
as contas dos pontos de cultura, ela bloqueou o direito da população de
produzir cultura. Ela poderia olhar pra trás e pra frente. Por acaso as
empreiteiras todas estão com as contas em dia? O agronegócio não está
sempre renegociando dívidas com o BNDES? É um disparate, um rigor
excessivo do tribunal de contas, que faz vista grossa para um monte de
setores e na cultura cobra item por item. A Marta Suplicy ainda
não disse que veio. Ela é uma ministra que eu respeito muito, fui
vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura na gestão dela em São
Paulo e fizemos muitos projetos saudáveis. Então ela tem um laço com a
cultura. Mas até agora o ministério dela só discute com os empresários.
Acredito que ela tenha que mudar o olhar dela. Ela foi eleita senadora
pelo povo – eu duvido que os empresários tenham votado nela. Então ela
tem que se abrir ao diálogo.
