Teologia da Libertação: uma doutrina em transe

  • Afastada das polêmicas, a corrente de pensamento sobrevive em paróquias e grupos de discussão
Flávio Tabak
Publicado:
RIO – O “pessoal da TL” é conhecido na Paróquia São Simão, em Belford
Roxo. Eles não gostam de ser chamados assim por colegas e, dentro dessa
igreja, são maioria. Acreditam nos princípios da Teologia da
Libertação, a ecumênica e crítica corrente de pensamento originada há
mais de 40 anos na América Latina e que enfrentou grandes resistências
na Cúria, principalmente nos anos 1980. Hoje já não há tanta polêmica
nos pensamentos sobre a luta contra a desigualdade social como ação
fundamental da religião. Envolta em escândalos financeiros e de
pedofilia, a Igreja tem outras prioridades – como o conclave que elegerá
o sucessor de Joseph Ratzinger, o hoje Papa emérito Bento XVI. Mas essa
forma de pensar, marcada por críticas de que politizaria e espalharia
conceitos marxistas nos templos, sobrevive em constante transformação.

A
Paróquia São Simão tem imagens de santos, bancos de madeira, púlpito e
tudo como manda o figurino. Mas a artesã Margareth Candido, de 45 anos,
sabe que existe ali algo diferente. O padre italiano Bruno Costanzo e as
senhoras que vendem artesanato no centro cultural da igreja, também.

Sou católica apostólica romana, obediente ao Papa etc. e tal. Mas
acredito muito na proposta da Teologia da Libertação. Na Baixada não há
outra alternativa fora estar preocupado com a vida do pobre. Depois
descobrimos que isso tem nome. Aqui as ovelhas caminham, não somos
simplesmente cordeiros – conta Margareth, que, além de frequentar a
igreja, faz trabalhos sociais numa comunidade eclesial de base. – Somos
da TL, assim dizem as pessoas da renovação carismática que frequentam a
igreja. Esse título me incomoda, rótulos só atrapalham. Eu sou da
Igreja, discípula de Cristo!
Foram-se a Guerra Fria e a ditadura
militar brasileira, e o mundo não é mais polarizado entre comunismo e
capitalismo. Já fez sentido político dizer que as atividades sociais da
Teologia da Libertação representavam risco para a Igreja, podendo
resultar até em processos inquisitórios. Padre Bruno defende que esse
tipo de teologia aparece, hoje, na forma de encarar a desigualdade, e
cita exemplos como cursos de formação de líderes e ações sociais. Talvez
a marginalização do movimento, que perdeu força política, tenha
contribuído para que sua manifestação apareça agora de forma mais
pulverizada.
Quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé,
antiga Santa Inquisição, o então cardeal Joseph Ratzinger atuou para
calar o movimento. Um caso conhecido é a condenação a um ano de
“silêncio obsequioso” do então padre brasileiro Leonardo Boff, em 1985.
Ratzinger foi o inquisidor. Em 2013, com a democracia brasileira em
pleno amadurecimento, o padre Bruno não tem problemas ao assumir sua
visão de mundo. Diz que é seguidor da Teologia da Libertação há décadas e
que não teme punições de bispos.
– Há uma certa tentação da
Igreja de se fechar em si mesma porque os problemas são muito
complicados. Ressurgem tentações de o padre ser a autoridade dentro de
seu grupinho e ficar restrito a isso, não encarar os desafios. Isso
infelizmente acontece. Tentamos levar em frente os ideais que
aprendemos. São a essência do Evangelho. Se Jesus ficasse fechado no
templo em Jerusalém, não encontraria ninguém. Mas ele resolveu andar no
meio do povo, e vieram as consequências. A Igreja tem que fazer o mesmo,
estar dentro do povo.
Por mais que a repercussão não seja a mesma
do passado, alguns ecos das antigas críticas aparecem. O teólogo Boff
conta que, em 2011, foi convidado para ser professor visitante, por um
semestre, da Universidade de Munique, na Alemanha. Foram espalhados
alguns cartazes pela instituição para chamar alunos a participar do
curso. Foi quando Ratzinger reapareceu na vida de Boff.
– Era um
curso aberto sobre novas fronteiras da Teologia da Libertação. Em visita
à universidade, o Papa, que descansava na Baviera, viu aqueles cartazes
anunciando meu nome e falou com o reitor para cancelar. Logo depois me
pediram desculpas, e o reitor me escreveu dizendo que não poderia negar
um pedido do Papa. Não dei o curso – recorda-se Boff. – Até os dias de
hoje, Bento XVI tentou estrangular a Teologia da Libertação.
Longe
de Munique, em Belford Roxo, o trabalho de uma igreja ligada a essa
corrente guarda algumas diferenças na comparação com templos
tradicionais. No fim de janeiro deste ano, por exemplo, foi feito um
curso para formar lideranças, com ajuda da Iser Assessoria, ONG que se
originou no Instituto de Estudos da Religião e reúne teólogos,
cientistas sociais e historiadores para ajudar religiosos, comunidades
eclesiais de base e outros movimentos a levar adiante conceitos
originários da Teologia da Libertação. Nessas reuniões, a teologia é
abordada, assim como uma leitura progressista do Concílio Vaticano II
(1961-1965), que implementou uma série de mudanças na Igreja, como a
valorização da convivência com outras religiões.
– Dentro da
preocupação da Teologia da Libertação, precisamos entrar na vida da
sociedade, porque, antes, a Igreja era maioria, centro de poder e
serviço. Hoje não é mais assim – diz o padre Bruno.
Teólogo da
Iser Assessoria, Névio Fiorin diz que a ONG trabalha diretamente com
padres. Ele diz ter percebido uma mudança no perfil deles:

Trabalhamos na formação de padres e freiras e com líderes de comunidades
eclesiais de base. Temos ajudado bispos, paróquias e organizações
religiosas para a revisão da atividade pastoral. A Igreja é um organismo
vivo. Por meio da Pastoral da Juventude, temos contato com a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Hoje os padres querem
mais conforto, trabalhar em igrejas de classe média, ter apartamento e
carro. A Teologia da Libertação sentiu o baque, não dá para negar.
Nascido
na cidade de Fossano, na região de Piemonte, padre Bruno ordenou-se
ainda na Itália. Pouco depois, atendeu a um pedido da Igreja e decidiu
vir para o Rio, em 1969. A temporada seria de cinco anos, para ajudar na
evangelização na América Latina. Já está por aqui há mais de 42 anos.
Aos 71, depois de passagens por paróquias de Bangu e da Baixada
Fluminense, não pensa em deixar a São Simão, onde trabalha há 30 anos.
Ele dá pistas de onde surgiu o interesse por temas sociais e políticos:

Quando cheguei de navio, todos queriam saber o que estava acontecendo
porque a repressão (militar) estava comendo solta. Dois dias depois da
minha chegada, prenderam o Frei Betto e soubemos da morte do (Carlos)
Marighella.
Por mais que não apareça como em décadas passadas,
Boff vê vivos os princípios. Ele chama a atenção para o método da
Teologia da Libertação, segundo o qual a pessoa analisa a realidade
para, assim, julgar que decisão tomar. Há também eventos periódicos,
como a organização de um fórum específico sobre a corrente de pensamento
sempre antes de cada Fórum Social Mundial (encontro criado para ser um
contraponto às políticas neoliberais).
– A partir da opção pelos
pobres, você tem outra imagem de Deus. Não é o tirano, senhor dos
palácios, é o Deus da ternura dos humildes, que usa seu poder para
defender o pobre – diz Boff. – (Karl) Marx nos ensinou que pobre é no
discurso religioso. No discurso analítico, é oprimido. A religião é
usada em dois sentidos: para acalmar os pobres com promessas de
eternidade e felicidade e para legitimar os ricos, que se salvam pela
generosidade. O pobre se salva pela paciência.
Os ensinamentos de
Marx, mesmo citados, não são considerados por Boff criadores da Teologia
da Libertação. Ele argumenta que o marxismo existe hoje como teoria
sociológica, não como ideologia oficial de um Estado.
– É uma
coisa bíblica, não tem nada a ver com marxismo. Marx não é pai nem
padrinho da Teologia da Libertação. (Quem acusa a Teologia da Libertação
de marxista) Está chutando cachorro morto – diz Boff, que apoia o
projeto de governo do PT e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST), mesmo criticando o que chama de “vícios de
governabilidade”, com alianças políticas polêmicas.
Ao responder
sobre o futuro da Teologia da Libertação e da Igreja, Boff é otimista e
catastrófico. Sobre a corrente teológica, aponta como tema atual a
discussão sobre a presença das mulheres na Igreja e na sociedade. Os
debates sobre o aquecimento global fizeram, segundo ele, surgir um termo
novo, a Ecoteologia da Libertação. “O grande pobre é a terra”,
argumenta Boff.
Ele não esconde críticas ao cardeal brasileiro Dom
Odilo Scherer, um dos cotados pela imprensa internacional como favorito
no conclave.
– Se ele (Scherer) for o Papa, será o Bento XVII.
Ele é conservador, passou cinco anos em Roma e entrou para o sistemão
romano do Vaticano. Se o próximo Papa não destruir esse sistema, é
bobagem. A Igreja não vai se salvar e se tornará uma seita ocidental –
prevê. – Enquanto houver injustiça, haverá cristãos que vão se indignar,
resistir e iniciar o processo de libertação para que essas vozes não
gritem mais. A Teologia da Libertação é perene.


Adicionado em 23 de Maio de 2013 (matéria abaixo)

Padre Marcelo Rossi


Fr. Marcos Sassatelli
Frade Dominicano. Doutor em Filosofia e
em Teologia Moral. Prof. na Pós-Graduação em DD.HH. (Comissão Dominicana
Justiça e Paz do Brasil/PUC-GO). Vigário Episcopal do Vicariato Oeste
da Arq. de Goiânia. Admin. Paroq. da Paróquia N. Sra. da Terra
Adital

Lendo a “Entrevista
Padre Marcelo Rossi”
(Folha de S. Paulo, 29/04/13, p. A14), fiquei abismado
com a superficialidade com a qual o entrevistado trata das Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs). Demonstra claramente que não tem nenhuma experiência pessoal
de CEBs e nenhum conhecimento teológico a respeito das mesmas.


Antes de tudo, Pe. Marcelo, comprometer-se
socialmente e fazer “a opção pelos pobres” não é só -como você diz- “ter
trabalhos com recuperação de drogados e arrecadação de alimentos”. Os pobres
não são objetos da nossa ação assistencial e/ou caritativa, mas sujeitos e
protagonistas de sua própria história.


As obras de misericórdia, principalmente em
determinadas situações sociais de emergência, são necessárias, mas é preciso
ter sempre presente sua ambiguidade. Vale o alerta: “A misericórdia sempre
será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam
funcionais para um sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de
misericórdia sejam acompanhadas pela busca de verdadeira justiça social (…)” (DA,
385).


Comprometer-se socialmente e fazer “a opção pelos
pobres”, significa, sobretudo, ser uma Igreja pobre, para os pobres, com os
pobres e dos pobres; uma Igreja despojada, sem poder, sem ostentação, sem luxo,
sem triunfalismo e sem clericalismo; uma Igreja solidária com os pobres e que
assume a sua causa, que é a causa de um Mundo Novo, ou, à luz da fé, do Reino
de Deus, acontecendo na história humana e cósmica. “Como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres”! (Francisco,
bispo de Roma,16 de março de 2013).


É lamentável, Pe.
Marcelo, que você critique o incentivo da CNBB às CEBs. Elas -apesar das
limitações inerentes à condição humana- devem ser incentivadas não por uma
questão de proselitismo, mas pela sua fidelidade ao Evangelho. As CEBs, Pe.
Marcelo, não “esquecem a oração e não ficam só na política”. Reconhecem que tudo
é político, mas que a política não é tudo.


O perigo, Pe. Marcelo,
não é as CEBs “se tornarem mais políticas do que sociais”; não é as pessoas terem
nas CEBs “a tentação à política” (a política não é uma tentação, mas uma
vocação) ou “caírem na política” (se politizarem), “combinando princípios
cristãos a uma visão social de esquerda”.


O perigo é os cristãos/ãs
serem alienados e omissos diante das injustiças e violações dos direitos
humanos; não denunciarem -muitas vezes por covardia e conivência- as
“situações de pecado” (DA, 95) ou as “estruturas de pecado” (DA,
92), que são “estruturas de morte” (DA, 112).


O perigo é os cristãos/ãs
serem irresponsáveis frente aos desafios do mundo, fechando-se num “egoísmo
religioso”, que nada tem a ver com o Evangelho.


Ao contrário do que você,
Pe. Marcelo, afirma, o povo hoje, mais do que de “grandes espaços”, precisa de
“pequenos espaços”, para deixar de ser massa, viver a irmandade e ser
comunidade.


As CEBs, Pe. Marcelo, são
sal, luz e fermento em todas as dimensões da vida humana, inclusive na dimensão
política e político-partidária. Elas -a exemplo de Jesus- se encarnam no mundo e
estão sempre presentes na vida do povo. Iluminadas pelo Espírito Santo, sabem discernir
o que Deus quer nas diversas situações humanas


As CEBs vivem a utopia de
um Mundo Novo, que, à luz da fé, é a utopia do Reino de Deus, numa sociedade
pluralista e, sem perder sua identidade, respeitam e valorizam o diferente.


É lamentável, também, Pe.
Marcelo, que você -indo contra todos os ensinamentos da Igreja- tenha
aconselhado várias vezes um cristão (não importa agora o nome) a não entrar na
política, dizendo: “não faça isso”. Felizmente, o cristão aconselhado
demonstrou mais consciência social do que você e não aceitou a sua orientação.


No Brasil, as CEBs (à luz
da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano
de Medellín -Colômbia- 1968) são, sem
dúvida, a expressão mais significativa do modelo de Igreja do Vaticano
II.


Como irmão, Pe. Marcelo, permito-me dar uma sugestão:
antes de falar das CEBs, faça nelas uma experiência de vida e estude um pouco
de Eclesiologia cristã pós-conciliar.


Goiânia, 14 de maio de 2013.

Leia também: Fortalecer as comunidades integrativas de base. aqui

Arte na caminhada das comunidades eclesiais de base. aqui

Na 4a Ampliada das CEBs, no Crato/CE, Thiesco, coord. da PJ Nac.: Juventude e CEBs. 27/01/2013

Livro TEXTO-BASE do 13o Intereclesial das CEBs – de 7 a 11/01/2014, Juazeiro

Na 4a ampliada das CEBs –
Comunidades Eclesiais de Base – realizada na cidade do Crato, no Ceará,
de 24 a 27/01/2013, preparando o 13o Intereclesial das CEBs, que vai
acontecer em Juazeiro do Norte, Ceará, de 7 a 11 de janeiro de 2014, eu,
frei Gilvander L. Moreira, gravei parte do Lançamento do livro
TEXTO-BASE do 13º Intereclesial das CEBs, que tem como título “JUSTIÇA E
PROFECIA A SERVIÇO DA VIDA”. Socializo com você aqui no youtube. E
incentivo você a comprar o livro e lê-lo, pois está muito bom. Obs.:
Ampliada das CEBs refere-se à Coordenação Nacional das CEBs do Brasil.
Belo Horizonte, MG, Brasil, 28/01/2013.

Provocações sobre  o presente e o futuro das CEBs  aqui
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“É necessário distinguir entre uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta”, afirma o Cardeal Gerhard Müller

(acrescentado em 23 de maio de 2013)



A nomeação do cardeal Gerhard Ludwig Müller para prefeito da
Congregação que se ocupa da ortodoxia da doutrina católica, somada à
eleição do arcebispo de Buenos Aires para bispo de Roma, foi qualificada
em alguns ambientes como uma revanche da Teologia da Libertação,
criticada por João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger.


A decisão do
Papa não foi por motivos pessoais: Müller foi nomeado prefeito porque é
um dos mais brilhantes teólogos da Igreja, como demonstra sua carreira
acadêmica.


Em alguns ambientes católicos a nomeação do bispo de
Regensburg para prefeito da ortodoxia católica suscitou preocupação,
porque havia sido acusado de ter mantido contatos com representantes da
Teologia da Libertação e, particularmente, de ter sido amigo do padre
Gustavo Gutiérrez, com quem escreveu o livro Da Parte dos Pobres.
Teologia da Libertação.


A entrevista é de Włodzimierz Rędzioch e está publicada no sítio Zenit, 20-05-2013. A tradução é do Cepat.


Eis a entrevista.



Você, desde que é sacerdote e também como bispo é muito sensível aos
valores da justiça, da solidariedade e da dignidade da pessoa. Por que
este interesse pelos problemas sociais?


Eu venho de Mainz e minha
cidade, no início do século XIX, teve um grande bispo, o barão Willhelm
Emmanuel von Ketteler, que foi um precursor da Doutrina Social da
Igreja. Desde criança vivia em um ambiente de empenho social. E não
devemos esquecer que se na Europa do pós Segunda Guerra Mundial e após
as diversas ditaduras conseguimos construir uma sociedade democrática,
isto devemos também à doutrina social católica. Graças ao cristianismo
os valores da justiça, solidariedade e dignidade da pessoa foram
introduzidos nas Constituições de nossos países.


Em seu currículo vemos que teve muita relação com a América Latina. Como nasceu esta relação?



Durante 15 anos viajei pela América Latina, estive no Peru, mas também
em outros países. Passava dois ou três meses ao ano vivendo como vivem
as pessoas comuns, ou seja, em condições muito simples. No começo, para
um europeu isto é difícil, mas quando se aprende a conhecer pessoalmente
as pessoas e se vê como elas vivem, então se aceita a situação. Um
cristão tem que se encontrar em sua casa em qualquer parte: onde há um
altar Cristo está presente; em qualquer parte se pertence à família de
Deus.


No ano passado, quando você foi nomeado prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, alguns o acusavam de ser amigo do
padre Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação. O que nos
pode dizer sobre isso?


É verdade que conheço bem o padre Gutiérrez.
Em 1988, me convidaram para participar de um seminário com ele. Fui com
alguma reserva porque conhecia as duas declarações da Congregação para a
Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação, publicadas em 1984 e em
1986. Entretanto, pude constatar que é necessário distinguir uma
Teologia da Libertação equivocada e uma correta.


Considero que cada
teologia é boa se parte de Deus e de seu amor e tem a ver com a
liberdade e a glória dos filhos de Deus. Portanto, a teologia cristã que
fala da salvação dada por Deus não pode ser misturada com a ideologia
marxista que fala de uma autorredenção do homem.


A antropologia
marxista é completamente diferente da antropologia cristã, porque trata o
homem como um ser privado de liberdade e dignidade. O comunismo fala da
ditadura do proletariado e a boa teologia, ao contrário, fala da
liberdade e do amor. O comunismo, e também o capitalismo neoliberal,
rechaçam a dimensão transcendente da existência e se limitam ao
horizonte material da vida. O capitalismo e o comunismo são as duas
faces da mesma moeda, a moeda falsa. Ao contrário, para construir o
Reino de Deus a verdadeira teologia vem da Bíblia, dos Padres da Igreja e
do Concílio Vaticano II.


Em certos ambientes, sua nomeação para
prefeito da Congregação que se ocupa da doutrina católica e a recente
eleição do arcebispo de Buenos Aires para bispo de Roma foram vistos
como uma revanche da Teologia da Libertação, criticada por João Paulo II
e pelo cardeal Ratzinger. O que responde a estas vozes?


Em primeiro
lugar, queria destacar que não existe nenhuma ruptura entre Bento XVI e
o Papa Francisco no que se refere à Teologia da Libertação. Os
documentos do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé
serviram para esclarecer o que era necessário evitar, da maneira de
fazer a Teologia da Libertação à autêntica teologia da Igreja. Minha
nomeação não significa que se abre um novo capítulo nas relações com
esta teologia; pelo contrário, é um sinal de continuidade.


Bento
XVI, ao receber em 2009 um grupo de bispos do Brasil em visita ad limina
apostolorum, disse que valia a pena recordar que em agosto do ano
anterior foram comemorados os 25 anos da Instrução Libertatis Nuntius da
Congregação para a Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da Teologia da
Libertação. E acrescentou que “suas consequências mais ou menos
visíveis feitas de rebelião, divisão, discordância, ofensa, anarquia
ainda agora se fazem sentir, criando em nossas comunidades diocesanas
grande sofrimento e uma grave perda de forças vivas”. Concorda com esta
análise do pontífice sobre as consequências da Teologia da Libertação?



Estes aspectos negativos dos quais fala Bento XVI são o resultado da
mal entendida e mal aplicada Teologia da Libertação. Estes fenômenos
negativos não teriam acontecido se tivesse sido aplicada a autêntica
teologia. As diferenças ideológicas criam divisão na Igreja.


Mas
isto acontece também na Europa onde há, por exemplo, os chamados
católicos progressistas e conservadores. Isto recorda a situação de
Corinto, onde havia quem se referia a Paulo e quem, ao contrário, se
referia a Pedro, ao passo que outros se referiam a Cristo. Mas todos nós
temos que estar unidos em Cristo, porque Deus une, o mal divide. A
teologia que cria as divisões é antes ideologia. A verdadeira teologia
tem que levar a Deus, então não se pode criar divisões.


Excelência,
você, ao receber em 2008 o Doutorado Honoris Causa na Pontifícia
Universidade Católica do Peru, condenou em seu discurso “a infâmia da
nossa época: o capitalismo neoliberal”. O capitalismo neoliberal é uma
estrutura do mal?


É difícil fazer comparações entre uma estrutura do
mal e um pecado pessoal, embora cada pecado tenha uma dimensão social,
estando inserido em alguma ‘estrutura’: família, ambiente de trabalho,
sociedade, país. O capitalismo neoliberal é uma daquelas estruturas do
mal que no século XIX e XX queriam eliminar os valores do cristianismo.
Mas repito: por trás de cada estrutura estão as pessoas que aceitam seus
princípios, ou seja, por trás de qualquer estrutura do mal há pecados
pessoais. (Instituto Unisinos, Quinta, 23 de maio de 2013)

“É necessário distinguir entre uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta”, afirma o Cardeal Gerhard Müller 

A nomeação do cardeal Gerhard Ludwig Müller para prefeito da Congregação que se ocupa da ortodoxia da doutrina católica, somada à eleição do arcebispo de Buenos Aires para bispo de Roma, foi qualificada em alguns ambientes como uma revanche da Teologia da Libertação, criticada por João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger.
A decisão do Papa não foi por motivos pessoais: Müller foi nomeado prefeito porque é um dos mais brilhantes teólogos da Igreja, como demonstra sua carreira acadêmica.
Em alguns ambientes católicos a nomeação do bispo de Regensburg para prefeito da ortodoxia católica suscitou preocupação, porque havia sido acusado de ter mantido contatos com representantes da Teologia da Libertação e, particularmente, de ter sido amigo do padre Gustavo Gutiérrez, com quem escreveu o livro Da Parte dos Pobres. Teologia da Libertação.
A entrevista é de Włodzimierz Rędzioch e está publicada no sítio Zenit, 20-05-2013. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Você, desde que é sacerdote e também como bispo é muito sensível aos valores da justiça, da solidariedade e da dignidade da pessoa. Por que este interesse pelos problemas sociais?
Eu venho de Mainz e minha cidade, no início do século XIX, teve um grande bispo, o barão Willhelm Emmanuel von Ketteler, que foi um precursor da Doutrina Social da Igreja. Desde criança vivia em um ambiente de empenho social. E não devemos esquecer que se na Europa do pós Segunda Guerra Mundial e após as diversas ditaduras conseguimos construir uma sociedade democrática, isto devemos também à doutrina social católica. Graças ao cristianismo os valores da justiça, solidariedade e dignidade da pessoa foram introduzidos nas Constituições de nossos países.
Em seu currículo vemos que teve muita relação com a América Latina. Como nasceu esta relação?
Durante 15 anos viajei pela América Latina, estive no Peru, mas também em outros países. Passava dois ou três meses ao ano vivendo como vivem as pessoas comuns, ou seja, em condições muito simples. No começo, para um europeu isto é difícil, mas quando se aprende a conhecer pessoalmente as pessoas e se vê como elas vivem, então se aceita a situação. Um cristão tem que se encontrar em sua casa em qualquer parte: onde há um altar Cristo está presente; em qualquer parte se pertence à família de Deus.
No ano passado, quando você foi nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, alguns o acusavam de ser amigo do padre Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação. O que nos pode dizer sobre isso?
É verdade que conheço bem o padre Gutiérrez. Em 1988, me convidaram para participar de um seminário com ele. Fui com alguma reserva porque conhecia as duas declarações da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação, publicadas em 1984 e em 1986. Entretanto, pude constatar que é necessário distinguir uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta.
Considero que cada teologia é boa se parte de Deus e de seu amor e tem a ver com a liberdade e a glória dos filhos de Deus. Portanto, a teologia cristã que fala da salvação dada por Deus não pode ser misturada com a ideologia marxista que fala de uma autorredenção do homem.
A antropologia marxista é completamente diferente da antropologia cristã, porque trata o homem como um ser privado de liberdade e dignidade. O comunismo fala da ditadura do proletariado e a boa teologia, ao contrário, fala da liberdade e do amor. O comunismo, e também o capitalismo neoliberal, rechaçam a dimensão transcendente da existência e se limitam ao horizonte material da vida. O capitalismo e o comunismo são as duas faces da mesma moeda, a moeda falsa. Ao contrário, para construir o Reino de Deus a verdadeira teologia vem da Bíblia, dos Padres da Igreja e do Concílio Vaticano II.
Em certos ambientes, sua nomeação para prefeito da Congregação que se ocupa da doutrina católica e a recente eleição do arcebispo de Buenos Aires para bispo de Roma foram vistos como uma revanche da Teologia da Libertação, criticada por João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger. O que responde a estas vozes?
Em primeiro lugar, queria destacar que não existe nenhuma ruptura entre Bento XVI e o Papa Francisco no que se refere à Teologia da Libertação. Os documentos do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé serviram para esclarecer o que era necessário evitar, da maneira de fazer a Teologia da Libertação à autêntica teologia da Igreja. Minha nomeação não significa que se abre um novo capítulo nas relações com esta teologia; pelo contrário, é um sinal de continuidade.
Bento XVI, ao receber em 2009 um grupo de bispos do Brasil em visita ad limina apostolorum, disse que valia a pena recordar que em agosto do ano anterior foram comemorados os 25 anos da Instrução Libertatis Nuntius da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação. E acrescentou que “suas consequências mais ou menos visíveis feitas de rebelião, divisão, discordância, ofensa, anarquia ainda agora se fazem sentir, criando em nossas comunidades diocesanas grande sofrimento e uma grave perda de forças vivas”. Concorda com esta análise do pontífice sobre as consequências da Teologia da Libertação?
Estes aspectos negativos dos quais fala Bento XVI são o resultado da mal entendida e mal aplicada Teologia da Libertação. Estes fenômenos negativos não teriam acontecido se tivesse sido aplicada a autêntica teologia. As diferenças ideológicas criam divisão na Igreja.
Mas isto acontece também na Europa onde há, por exemplo, os chamados católicos progressistas e conservadores. Isto recorda a situação de Corinto, onde havia quem se referia a Paulo e quem, ao contrário, se referia a Pedro, ao passo que outros se referiam a Cristo. Mas todos nós temos que estar unidos em Cristo, porque Deus une, o mal divide. A teologia que cria as divisões é antes ideologia. A verdadeira teologia tem que levar a Deus, então não se pode criar divisões.
Excelência, você, ao receber em 2008 o Doutorado Honoris Causa na Pontifícia Universidade Católica do Peru, condenou em seu discurso “a infâmia da nossa época: o capitalismo neoliberal”. O capitalismo neoliberal é uma estrutura do mal?
É difícil fazer comparações entre uma estrutura do mal e um pecado pessoal, embora cada pecado tenha uma dimensão social, estando inserido em alguma ‘estrutura’: família, ambiente de trabalho, sociedade, país. O capitalismo neoliberal é uma daquelas estruturas do mal que no século XIX e XX queriam eliminar os valores do cristianismo. Mas repito: por trás de cada estrutura estão as pessoas que aceitam seus princípios, ou seja, por trás de qualquer estrutura do mal há pecados pessoais. (Instituto Unisinos, Quinta, 23 de maio de 2013)
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