Mundo Jovem – Namorar é buscar morada no outro.


Músicas

Jornal Mundo Jovem – Edição 437 – Junho de 2013.

  Namoro: é possível ampliar nosso conceito de amor

entrevista com Robertson Ferreira Lins (Esquilo), publicada na edição nº 437, junho de 2013.

Robertson Ferreira Lins (Esquilo)
psicólogo, didata em biodanza e pós-graduando em Espiritualidade, Educação e Ecologia. Reside em Recife, PE.
 


A sexualidade e o aprendizado através do namoro são temas importantes
para se conversar na escola. É preciso transformar nossos espaços de
vida – e a escola é um dos principais – e compartilhar sempre o nosso
melhor e o potencial de qualidade que o outro tem. Deixar que a relação
aconteça: que possamos ter entregas cada vez maiores sem tanta cobrança
de resultados. Ou “não ficar tão perto que a gente possa sufocar, e nem
tão longe que a gente possa ser esquecido”, como diz o nosso
entrevistado, Robertson Ferreira Lins. Esquilo, como gosta de ser
chamado.



  • O namoro ainda tem sentido ou é algo ultrapassado?
    O namorar hoje é bem atual e
    vai ser sempre atual, em qualquer época. Penso e ao mesmo tempo sinto
    que namorar é buscar um encontro com o outro, é buscar uma morada no
    abraço do outro, é querer morar dentro do outro para permitir se
    encontrar dentro do outro. E essa busca de se encontrar, de se permitir,
    de se entender, de buscar ser amado vai ter sentido em qualquer época.
    Namorar nunca vai estar fora de época, fora do contexto. Acredito que
    todo ser humano e todo animal vai sempre buscar o encontro. Nós,
    humanos, costumamos namorar, brincar de morar dentro do outro. Por isso
    creio que esse deslumbramento sempre vai existir, por mais que se diga
    que está desatualizado.

  • As características de namorar, hoje, são diferentes de outras épocas?
    Talvez exista alguma
    diferença conforme os tempos. Não sei se com o amor romântico da época
    medieval existiam mais poetas que declaravam o amor explícito, o amor
    comentado, do êxtase. Hoje, há uma série de burocracias que criamos em
    cima do namorar, há cobranças que existem entre as pessoas,
    principalmente exigindo resultados, como fazem as empresas. Talvez por
    isso o namoro tenha perdido um pouco o caminho. Porque o namoro não é
    resultado, é para se deslumbrar com o outro, é ampliar a sensação de
    percepção. Hoje temos mecanismos de expressão diferentes de namoro, a
    nossa vontade de namorar, vontade de dizer que ama. As maneiras é que
    são diversas.

  • A rapidez do mundo atual afeta o relacionamento amoroso, cria uma espécie de prazo de validade?
    A pressa que se tem hoje, a
    ideia da rapidez, da velocidade da internet e das informações, às vezes
    nos faz esquecer que namorar tem outro ritmo. Namorar é perceber, é ter a
    possibilidade de escutar o encanto da outra pessoa, saber brotar em
    cada chão por onde passamos, o encantamento de mostrar uma flor, mostrar
    uma árvore, mostrar o pôr do sol ou simplesmente olhar a lua cheia. E o
    tempo para isso é completamente diferente do tempo lógico. É algo mais
    lento. A rapidez impede a contemplação desses momentos juntos, de olhar,
    escutar, sentir a presença da outra pessoa. Não pode haver rapidez.
    Quando a gente começar a atrasar juntos os relógios e começar a fazer
    pequenas contemplações, estando cem por cento presentes, escutando e se
    deliciando com a presença do outro, o tempo é outro. Namoro não é
    resultado, é estar presente e pronto.

  • O namoro pode ser também um projeto de vida de alguém ou é algo que vai surgindo?
    Penso que tem as duas coisas.
    Existe a necessidade ou o desejo de um projeto de vida e, ao mesmo
    tempo, a relação que vai crescendo. Não sei a ordem de como começa, qual
    a primeira, mas acho que se perdeu um pouco, porque antes disso as
    pessoas deveriam se encontrar amando a si mesmas. Quando a pessoa
    descobre que pode amar a si, vai descobrir que pode amar o outro. Agora,
    no momento em que permanecemos juntos e percebemos continuamente que
    estamos juntos, tem uma continuidade.

    Lembrei de duas pessoas interessantes que falaram sobre o amor. Santo
    Agostinho disse: “simplesmente, ame”. Nada além do que seja amor.
    Cobrança já não é mais amor, exigência não é amor. E Jesus considerava
    que por amor tudo é possível. Então, duas pessoas que falaram de amor,
    falaram algo tão simples!

    Para ter continuidade de vida, de projeto de namoro, tem que se perceber
    se não está se escondendo atrás do amado ou da amada. Porque, se for
    assim, não há amor e o projeto vai por água abaixo. A pessoa tem que se
    perceber completa na relação. É um abrir-se, ficar transparente, e é na
    intimidade que há a possibilidade do projeto de vida, caso contrário
    fica difícil a continuidade.

  • Os novos tipos de família, outros modelos, podem afetar o namoro dos filhos?
    Acabamos tocando na ferida
    dos pais. Por ter recebido um pouco da não expressão amorosa com
    naturalidade, acredito que os pais acabam não entendendo as expressões
    amorosas dos filhos e não sabendo lidar com elas.

    Como os pais estão nas suas próprias relações? Se isso não vai bem, não
    há como entender as relações dos filhos. Quanto aos filhos, querendo ou
    não, há um pouco do protótipo das famílias. Se eles vêm de uma família
    desorganizada, podem entrar no círculo do padrão da família. Se os pais
    estão juntos por status, comodidade, algum receio, isso poderá refletir
    na percepção dos relacionamentos. Quando os pais se amam, dá para ter
    uma certa tranquilidade a respeito dos filhos. Então isso é algo de mão
    dupla: os pais entendendo a expressão amorosa dos filhos e os filhos
    entendendo a expressão amorosa dos pais.

  • Por que um namoro começa e por que ele termina?
    A própria vida é um processo
    de transformação. Tudo tem movimento. Há quem disse que tudo é vazio,
    luz, cores e que tudo é música e movimento. As relações começam porque
    buscamos esses encontros: da luz, da música, do vazio e do movimento. E
    se tudo é movimento, chega o momento de passar à frente, dar
    continuidade.

    A expressão amorosa é muito maior do que imaginamos. Agora, considerando
    que amar outra pessoa é o melhor para ela, e que quando ela queira ir
    embora, compreender que isso possa ser melhor para ela, é entrar no
    nosso templo de humildade e de liberdade, e permitir que o outro vá.
    Caso contrário, não é querer o melhor para o outro. Então tudo começa e
    tudo se transforma. Buscamos esse primeiro contato de carinho, de afeto,
    de proteção, de realização, mas talvez chegue o momento que se queira
    mais e isso não significa um fracasso na relação, mas uma ampliação
    desse amor.

    Confunde-se muito manter a relação com a posse. Mas as relações não são
    posse, elas são movimentos dançantes que se expressam a cada momento. A
    própria vida é uma dança, é uma dança se encontrar com o outro e também é
    uma dança partir para outros movimentos.

  • O namoro pode servir para um aprendizado do corpo?
    A todo momento estamos
    aprendendo, e o aprendizado também acontece na relação com a outra
    pessoa. Mas talvez tenha se perdido um pouco quando esquecemos de cuidar
    da relação. E daí entrou uma série de moralismos em cima da relação com
    o corpo, acabou surgindo a condenação e, com a condenação não há
    aprendizado perfeito. Mas no momento em que entrarmos desculpabilizando o
    corpo, com o devido cuidado, é um verdadeiro aprendizado com o outro.
    Talvez tenhamos que descobrir quais são os nossos medos, nossas culpas, o
    que estamos buscando, porque o outro simplesmente me dá as pistas do
    que estou buscando. Quem vai criar percepções e entendimento é a própria
    pessoa. Namorar vai ser sempre um aprendizado.

  • Como a nossa sociedade e os meios de comunicação lidam com as diferentes expressões de afeto?
    Acho estranho como, numa
    sociedade, dentro do nível da racionalidade, falamos de amor e ao mesmo
    tempo negamos as expressões amorosas em todos os lugares. A televisão,
    por exemplo, passa mais expressões de morte, de violência do que as
    pequenas expressões amorosas, como o simples gesto de ajudar alguém a
    atravessar a rua, dar uma flor, escrever um poema, olhar para outra
    pessoa. Esses pequenos gestos não são muito pontuados. E quando se
    reprime a expressão amorosa, aí se provoca o maior distúrbio social, que
    é a própria violência, a não aceitação do diferente. A diversidade é
    que faz a vida dar seus passos. É o entendimento desse diferencial
    também em nós que talvez possa aceitar o diferencial que está fora. Do
    contrário nos tornamos ditadores; as outras expressões não valem. Acho
    que todas as expressões são válidas, contanto que revelem o cuidado, o
    afeto, a cumplicidade e também intimidade num sentido mais amplo, em que
    possamos encontrar vida em todas as emoções.

    Existem emoções que fazem com que nos permitamos, nos abramos para a
    vida, e outras que fazem com que nos fechemos, que é a depressão.
    Perceber as expressões amorosas externas faz com que nos abramos. Acho
    que tem uma mistura de moralismo que talvez tenhamos recebido, somado ao
    medo dessas expressões corporais, de sensações que temos. Muitas vezes,
    olhar também provoca extremas emoções. Ao mesmo tempo, devido às nossas
    repressões, não queremos revelar a alegria de ver em nós e no outro as
    expressões diferentes. É preciso deixar os sentimentos comungarem com as
    ideias.


O namoro na escola atrapalha ou ajuda?



O namoro pode ajudar muito na escola, porém vai depender da escola e do
nível de repressão que os professores carregam dentro de si. Porque se
pegar o tema namoro, o flertar, o ficar, o encontrar-se com o outro
também como tema de sala de aula, desmistificando esse mistério do amor,
colocando-o com mais naturalidade, seria um aprendizado, talvez mais
terapêutico do que educativo. É importante compartilhar nossas sensações
de alegria, de prazer, de estar aberto para o mundo, porque, quando
estamos amando, estamos vendo tudo muito mais bonito. E é essa força
divinal que precisamos redescobrir dentro das escolas. As escolas
deveriam se abrir para este potencial de vida. Por que não associar o
amor e suas várias expressões dentro da sala?


Acho que tudo o que é muito proibido e não é discutido, comentado,
provoca uma curiosidade imensa. O ser humano é um bicho curioso. Ele
busca alguma coisa, quer entender, quer experimentar, sair dos limites.
Então, quanto mais naturalidade nos temas, mais vai preparar as pessoas
para escolherem o que querem.


Entre a relação de amor e a relação de morte, parece que se valoriza
mais a morte, a luta, a competição. Quase nada se valorizou das
expressões amorosas em suas múltiplas possibilidades. Não sei se seria
muita hipocrisia hoje querer limitar os tipos de relações amorosas
permitidas. Penso que tem que deixar as pessoas serem felizes. Se o
feliz dela é estar com o igual, vamos celebrar o igual; se for com os
diferentes, vamos celebrar os diferentes, mas o importante é deixar as
pessoas escolherem suas melhores expressões amorosas, contanto que não
invadam o espaço das outras pessoas: terão apenas que fazer uma escolha
responsável. Mas é ainda um grande debate, uma grande discussão tanto
filosófica quanto psicológica para ser colocada nas escolas, nos
encontros, nos meios de comunicação.


Se nas aulas de História, por exemplo, falássemos do amor em todas as
épocas ao invés de falar das guerras, acho que seria interessante. A
questão da sexualidade, do aprendizado através do namoro, acredito ser a
própria expressão divina. Quando a flor desperta para o desabrochar já é
um convite para a abelha chegar. É tudo uma dança. E a dança
simplesmente acontece.

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 Sugestão do blog
Cântico dos Cânticos – Um dos mais belos poema para  os (e)namorados.

Texto completo  AQUI

Notas erótico exegéticas  AQUI

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