- “Sua conduta deveria, no mínimo coincidir com os valores pregados por Jesus, que jamais discriminou alguém”, lembra Frei Betto
atendeu solícito o apelo do centurião romano (um pagão!) interessado na
cura de seu servo; deixou que uma mulher de má reputação lhe lavasse os
pés com os próprios cabelos e ainda recriminou os que se escandalizaram
ao presenciar a cena; e não emitiu uma única frase moralista à
samaritana adepta da rotatividade conjugal, pois estava no sexto homem!
Ao contrário, a ela Jesus se revelou como o Messias”.
“Infelicianidade”, publicado no jornal “Folha de S.Paulo”, nesta
sexta-feira, 12, no qual critica o deputado e pastor Marco Feliciano
(PSC-SP). O frade domiciano chama de ignorantes os que se ancoram na
tradução literal da Bíblia e diz que Deus ama incondicionalmente a
todos.
filhos?” sobre a declaração racista de Feliciano de que negros são
amaldiçoados. No texto, o frade lembra que “o deputado é um pastor
evangélico. Sua conduta deveria, no mínimo, coincidir com os valores
pregados por Jesus, que jamais discriminou alguém.”.
Leia a matéria completa:
12/04/2013
–
03h30
Fonte: Folha de São Paulo
Frei Betto: Infelicianeidade

Vocábulos nascem de expressões populares. Assim como nomes próprios
trazem significados que deitam raízes em suas respectivas etimologias.
Feliciano é nome de origem latina, derivado de felix, feliz. Nem sempre,
contudo, uma pessoa chamada Modesto deixa de ser arrogante e conheço
uma Anabela que é de uma feiura de fazer dó.
Estamos todos nós, defensores dos direitos humanos, às voltas com um
pepino federal. Nossos servidores na Câmara dos Deputados, aqueles cujos
altos salários são pagos pelo nosso bolso, cometeram o equívoco de
eleger o deputado e pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de
Direitos Humanos e Minorias.
O pastor deputado, filiado ao PSC-SP, escreveu em seu Twitter:
“Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato”. Em
outra mensagem, postou: “Entre meus inimigos na net (sic) estão
satanistas, homoafetivos, macumbeiros…”.
Em processo aberto no Supremo Tribunal Federal, Feliciano é acusado de
induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou
religião –crime sujeito à prisão de um a três anos, além de multa. Em
sua defesa, Feliciano afirma: “Citando a Bíblia (…) africanos
descendem de Cão (sic) (ou Cam), filho de Noé. E, como cristãos, cremos
em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições”.
Que deus é esse que amaldiçoa seus próprios filhos? Essa suposta
teologia vigorou no Brasil colonial para justificar a escravidão. O Deus
de Jesus ama incondicionalmente a todos. Ainda que O rejeitemos, Ele
não deixa de nos amar, conforme atestam a relação do profeta Oseias e
sua mulher, Gomer, e a parábola do Filho Pródigo.
Todo fundamentalismo cristão é ancorado na interpretação literal da
Bíblia, que deriva da ignorância exegética e teológica. Os
criacionistas, por exemplo, acreditam que existiram um senhor chamado
Adão e uma senhora chamada Eva, dos quais somos descendentes (embora não
expliquem como, pois tiveram dois filhos homens, Caim e Abel…). Ora,
Adão em hebraico é terra, e Eva, vida. O autor bíblico quis acentuar que
a vida, dom maior de Deus, brota da terra.
Ter Feliciano como presidente de uma comissão tão importante –por culpa
de legendas como PMDB, PSDB e PT– é uma infelicidade. Não condiz com o
nome do deputado que, na roda do samba que está obrigado a dançar,
insiste no refrão: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
O deputado é um pastor evangélico. Sua conduta deveria, no mínimo,
coincidir com os valores pregados por Jesus, que jamais discriminou
alguém.
Jesus condenou o preconceito dos discípulos à mulher sírio-fenícia;
atendeu solícito o apelo do centurião romano (um pagão!) interessado na
cura de seu servo; deixou que uma mulher de má reputação lhe lavasse os
pés com os próprios cabelos, e ainda recriminou os que se escandalizaram
ao presenciar a cena; e não emitiu uma única frase moralista à
samaritana adepta da rotatividade conjugal, pois estava no sexto homem!
Ao contrário, a ela Jesus se revelou como o Messias.
É direito intrínseco de todo ser humano, e também da democracia, cada um
pensar pela própria cabeça. Nada contra o pastor Feliciano, na
contramão do Evangelho, abominar negros e odiar homossexuais e adeptos
da macumba. Desde que não transforme seu preconceito em atitude
discriminatória, e seu mandato em retrocesso às conquistas que a
sociedade brasileira alcança na área dos direitos humanos.
Estamos todos nós indignados frente ao impasse armado pelo jogo político
rasteiro da Câmara dos Deputados. Eis uma verdadeira situação de
infelicianeidade, com a qual não podemos nos conformar.
Tudo o que move é sagrado
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“Toda arte que nos move a buscar a vida em plenitude é sagrada”.
“Mesmo que o poeta seja ateu, um bom poema sempre nos aproxima de Deus”.
Aqueles que apresentam um Deus machista, preconceituoso, autoritário,
ciumento e violento expressam o sentimento humano. Como exemplo podemos
lembrar do mandamento “amar a Deus sobre todas as coisas”, complementado por Jesus Cristo, “e ao próximo como a si mesmo”.
Caetano Veloso
O colunista
escreve aos domingos
Ainda Feliciano?
Fonte: O Globo
Por que mentir tão descaradamente sobre fatos conhecidos?
Nem estou acreditando que volto ao assunto do
pastor/deputado/presidente da CDHM. Mas, como muitos devem ter visto,
ele mentiu reiterada e estridentemente sobre mim. Há um vídeo no YouTube
em que Feliciano, esbravejando de modo descontrolado, diz-se com Deus
contra o diabo e, para provar isso, mente e mente mais. As pessoas
religiosas deveriam observar o quanto ele está dominado pela soberba.
Faz pouco, ele se sentiu no direito de julgar os vivos e os mortos,
explicando por meio de uma teologia grotesca a morte dos garotos dos
Mamonas e sagrando-se justiçador de John Lennon. Agora, aferra-se à
mentira. Meu colega Wanderlino Nogueira notava, com ironia histórica
sobre as espertezas da igreja católica, que a mentira não está entre os
sete pecados capitais. Mas sabemos que “levantar falso testemunho” é
condenado pelo Deus de Moisés. Por que mentir tão descaradamente sobre
fatos conhecidos? Será que minha calma observação, aqui neste espaço, de
que sua persona pública é inadequada ao cargo para o qual foi escolhido
(matizada pela esperança no papel das igrejas evangélicas) o ameaça tão
fortemente? Eu diria a pastores, padres, rabinos ou imãs — sem falar em
pais de santo e médiuns espíritas, que são diretamente agredidos por
ele — que atentassem para o comportamento de Feliciano: como pode falar
em nome de Deus quem mente com tão evidente consciência de que está
mentindo?
Sim, porque não há, dentre aqueles que prestam atenção
no meu trabalho, quem não saiba que, ao cantar a genial canção de
Peninha “Sozinho” num show, eu indefectivelmente dizia não apenas que me
apaixonara por ela através das gravações de Sandra de Sá e de Tim Maia:
eu afirmava que cantá-la ao violão era só um modo de chamar a atenção
para aquelas gravações. Como pode Feliciano dizer que “a imprensa foi
rastrear” e descobriu que a música já tinha sido gravada por Sandra e
Tim? Essas duas gravações eram sucessos radiofônicos. E como pode ele,
sem piedade daqueles que com tanta confiança o ouvem em seu templo,
afirmar que eu disse em entrevista coisa que nunca disse e nunca diria,
ou seja, que o êxito inesperado de minha versão de “Sozinho” se deveu a
eu ter mostrado a faixa a Mãe Menininha e esta ter-lhe posto uma bênção
que, para Feliciano, seria trabalho do diabo? Mãe Menininha, figura
importante da história cultural brasileira, já tinha morrido fazia cerca
de dez anos quando gravei a canção.
É muita loucura demais. E
muita desonestidade. Aprendi com meu pai os gestos da honestidade — e
tomei o ensinamento de modo radical. Me enoja ver a improbidade.
Feliciano sabe que eu nunca dei tal entrevista. Mas não se peja de
impressionar seus ouvintes gritando que eu o fiz. Ele, no entanto, não
sabe que eu jamais sequer mostrei qualquer canção minha à famosa
ialorixá. Nem a Nossa Senhora da Purificação eu peço sucesso na
carreira. Nunca pedi. Nem a Deus, nem aos deuses, e muito menos ao
diabo. Decepciono muitos amigos por não ser religioso. Mas respeito cada
vez mais as religiões. Vejo mesmo no cristianismo algo fundamental do
mundo moderno, algo inescapável, que é pano de fundo de nossas vidas.
Mas não sou ligado a nenhuma instituição religiosa. Eu me dirigiria aqui
àqueles que o são.
Os homens crentes devem tomar atitude mais
séria em relação a episódios como esse. O que menos desejo é ver o
Brasil dividido por uma polaridade idiota, em que, de um lado, se unem
os que querem avanços nos costumes, e de outro, os que necessitam
fundamentos de fé, ambos gritando mais do que o conveniente, e alguns,
como Feliciano, saindo dos limites do respeito humano. Eu preferiria
dialogar com crentes honestos (ou ao menos lúcidos). Não aqueles que já
se põem a uma distância segura da onda neopentecostal. Eu gostaria de
dialogar com um Silas Malafaia, de quem tanto discordo, mas que respeita
regras da retórica e da lógica. Marina Silva seria ideal, mas
poupemo-la. Não é preocupante, eu perguntaria a alguém assim, que um dos
seus minta de modo tão escancarado? É fácil provar que nunca fiz
aquelas declarações e é fácil provar que Sandra e Tim tiveram êxito com a
obra-prima de Peninha. E que eu louvei esse êxito ao cantar a canção.
Foram dezenas de milhares de brasileiros que ouviram. Se Feliciano
precisa, para afirmar sua postura religiosa, criar uma caricatura
caluniosa dos baianos e da Bahia, algo é muito frágil em sua fé. A maré
montante do evangelismo não dá direito à soberba irrefreada. O boneco
tem pés de barro. E cairá. Eu creio na justiça e na verdade. Esses
valores atribuídos a Deus têm minha adesão irrestrita. Não sei que Deus
sustenta a injustiça e a mentira. Ou será que é aí que o diabo está?

