Acima de tudo, a liberdade
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Adiberto lembrou a nódoa, na coluna da Infonet. Há quase 40 anos, no
dia 20 de fevereiro de 1976, a Operação Cajueiro deixaria uma marca
indelével na história política de Sergipe. Para alguns militantes da
liberdade, no entanto, as cicatrizes seriam ainda mais dolorosas e
acompanhariam o corpo maltratado pelos carrascos do golpe de 64 vida
afora, pelo menos nos episódios em que restou vida. É o caso de Milton
Coelho, que denuncia no passo claudicante que ofereceu a intimidade de
sua casa, nos interstícios da memória, uma geração de mutilados.
O encontro foi mediado há um bom par de janeiros pelo Professor Dudu,
presidente da Central Única dos Trabalhadores, então empenhado na
construção de um Memorial dedicado às atrocidades perpetradas pelo
Regime Militar em Sergipe. O sindicalista enxergava no exemplo de Milton
Coelho muito mais do que o personagem esmaecido nas páginas de uma
história que ainda está para ser contada. Coberto de razão, Dudu não
subtrai ao símbolo as feridas do homem de carne e osso.
Milton
Coelho concorda com o jornalista Zuenir Ventura quando ele afirma que o
ano de 64 ainda não acabou. Segundo ele, não é possível admitir mácula
de sombra sobre a História. “Eu sou partidário de que é preciso
identificar todas as ocorrências. É preciso identificar todos os que
participaram daquelas atrocidades para que as novas gerações sejam
municiadas e não permitam que tudo se repita”.
As atrocidades
que Milton Coelho menciona eram praticadas com método. Ele conta que os
jagunços envolvidos no desbaratamento da célula sergipana do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), objetivo maior da Operação Cajueiro, se
esmeravam numa espécie de ritual.
“Quando levados pelos
sequestradores e entregues aos responsáveis pela fase que antecedeu a
formalização do Inquérito Policial Militar, os presos políticos, que na
maioria já tinha uma borracha circulando os olhos, receberam
“tratamento” de impacto, começando pela troca da roupa que vestiam por
um macacão com um número no peito e um capuz. Aqueles que eram
considerados mais comprometidos na organização da resistência à ditadura
militar receberam o que era chamado de “tratamento especial”, incluindo
torturas com a cabeça submergida em depósito com água, por várias
vezes, pontapés nas costelas em ambos os lados, choques elétricos nas
mãos e no pênis, além da ameaça de assassinato, quando, circulando uma
corda nos tornozelos do preso, afirmavam que iriam suicidá-lo”.
O próprio Milton Coelho foi objeto do ritual macabro, e carrega na
carne as marcas da violência. Além de cicatrizes e uma costela quebrada,
ele foi condenado a tatear o mundo pelo resto de seus dias. A retina
deslocada, responsável por uma deficiência visual que até hoje não
conheceu cura, lhe impôs prejuízos econômicos e dificuldades pessoais,
mas não abateram seu interesse pela vida.
Atento e forte,
Milton Coelho acompanha as transformações da conjuntura política e
acredita que, a despeito de incoerências pontuais, o campo político da
esquerda precisa se manter unido para garantir os avanços necessários à
manutenção da democracia.
Nas palavras do próprio Milton: “Nós temos
uma população que, infelizmente, ainda não tem consciência política.
Isso pode facilitar o retrocesso. A minha preocupação consiste em não
dar chance aos inimigos dos trabalhadores e da liberdade”.
