Processo seletivo da UFS. E agora? :: Por José Lima Santana

19/1/2013

Fonte: Portal Click Sergipe


Paciente,
eu ouvi, durante a semana, algumas tentativas de explicações para o
resultado negativo, em parte, do ingresso dos nossos jovens nos cursos
da UFS.

O meu artigo Sergipe em polvorosa…”,
publicado em páginas do facebook, além de inúmeras chamadas no twitter,
resultou em debate no rádio, dezenas de comentários favoráveis nos
sites, no “face”, no twitter, por e-mail, por telefone e pessoalmente,
aos quais agradeço, sem deixar de considerar que alguém não gostou, tudo
isso ensejou este novo artigo.

Professor
há mais de 30 anos, desde o antigo curso primário, passando pelo ensino
médio, até o superior (graduação e pós-graduação), inclusive dirigindo e
coordenando escolas e cursos, eu me acho no sagrado direito de opinar.
Inconteste é que a situação que causou polvorosa, sobretudo junto aos
próprios estudantes e suas famílias, carece de análises aprofundadas.
Alguns alunos meus, na UFS, me disseram, na terça-feira, 15, que as
provas do ENEM têm metodologia muito diferente daquelas provas que os
sergipanos estavam acostumados a responder nos vestibulares, pois o
ensino médio era direcionado para aquele tipo de provas. Ora, se isso
procede, é uma lástima, uma vez que o ensino deve ser ministrado à
altura de quaisquer necessidades, no seu nível, e não bitolado numa só
direção. Tomara que isso não proceda, embora eu não tenha motivo para
duvidar dos meus alunos. Afinal, eles passaram por esse ensino. Logo,
devem saber o que dizem.


“O
problema que alguns tentam jogar para debaixo do tapete é que os nossos
jovens mostraram que não foram devidamente preparados para enfrentar a
concorrência”



A
adesão ao ENEM como instrumento para o ingresso na UFS acabou, de certo
modo, propiciando que muitas vagas ficassem com candidatos de outros
Estados. O que está errado, ao contrário do que alguns pensam e choram
pelos cantos, não é a “enxurrada” de candidatos de fora. Longe disso. O
problema que alguns tentam jogar para debaixo do tapete é que os nossos
jovens mostraram que não foram devidamente preparados para enfrentar a
concorrência. O modelo do processo ensino/aprendizagem das nossas
escolas talvez precise mesmo mudar. Não sei. Desconheço, hoje, esse tal
modelo. Evidente foi que ficamos aquém do esperado. E isso não deve
continuar. Será que alguém ainda tenta tapar o sol com uma peneira? Bem.
Tem gente para tudo.





Vou mostrar a situação que se verificou em vários cursos, no tocante ao
Grupo D. Esclareço para quem não está a par da situação, que o Grupo D é
dos candidatos não cotistas, ou seja, dos que estudaram em escolas
particulares. Os demais Grupos (E, F, G e H) são de cotistas sociais
(com renda familiar pequena) ou cotistas étnicos (negros, pardos e
indígenas, com renda familiar pequena), oriundos das escolas públicas.




No curso de Direito vespertino, no Grupo D, foram aprovados: 11 da
Bahia; 3 do Ceará; 2 de Pernambuco; e 8 de Sergipe. Ou seja: das 24
vagas dedicadas aos egressos das escolas particulares, somente um terço
(1/3) foi preenchido por sergipanos.


 


Em vários outros cursos, os sergipanos do grupo D também ficaram para
trás. O caso mais grave deu-se no curso de Medicina, como foi amplamente
divulgado. Aí a coisa foi feia. E não foi só no Grupo D, não. Levamos
bomba nos dois campi: São Cristóvão e Lagarto. Em São Cristóvão, das 49
vagas destinadas ao Grupo D, somente 6 ficaram com os sergipanos,
enquanto as outras 43 foram arrebatadas pelos não sergipanos. Goleada
feia. Mas, nos outros Grupos, dedicados aos cotistas, a situação foi
parecida: 11 sergipanos aprovados contra 40 não sergipanos. No total,
então, das 100 vagas, ficaram 17 para os sergipanos e 83 para os não
sergipanos. No mesmo curso de Medicina, em Lagarto, o desastre seguiu no
mesmo tom: no Grupo D, perdemos de 2 (sergipanos) a 27 (não
sergipanos). E nos demais grupos, dedicados aos cotistas, o placar foi
de 3 para os sergipanos e 28 para os não sergipanos. No total, em
Lagarto, foram 5 sergipanos aprovados e 55 não sergipanos. No total
geral de Medicina (160 vagas), no conjunto dos dois campi, os sergipanos
ficaram com 22 vagas, e os não sergipanos, com 138 vagas.


 


Vamos a outros cursos? Os números a seguir referem-se ainda ao Grupo D
(alunos das escolas particulares), no campus de São Cristóvão. Em
Engenharia Mecânica, foram 12 sergipanos e 13 não sergipanos. Em
Engenharia Civil, perdemos de 13 a 18. Em Engenharia Ambiental, perdemos
de 6 a 14. Em Engenharia Química, perdemos de 7 a 18. Em Engenharia de
Alimentos, perdemos de novo de 7 a 18. Em Engenharia de Petróleo,
perdemos também de 7 a 18. Em Engenharia Elétrica, perdemos, mais uma
vez, de 7 a 18. Esse placar (7 a 18) parece até uma perseguição. Em
Farmácia, perdemos de 14 a 25. Em Odontologia, perdemos de 7 a 23. Em
Ciências Biológicas (Bacharelado), perdemos de 4 a 10. Em Engenharia
Agronômica, perdemos de 11 a 14. Em Geologia, perdemos de 7 a 18. Em
Design, perdemos de 8 a 16.


 


No campus de Lagarto, além de Medicina, levamos outras surras. Em
Farmácia, perdemos de 6 a 19. Em Nutrição, perdemos de 11 a 14. Em
Odontologia, perdemos de 4 a 21. No campus de Laranjeiras tivemos outros
dissabores. Em Arqueologia, perdemos de 11 a 14. Em Arquitetura e
Urbanismo, perdemos de 8 a 16.


Aparentemente, a vaca dos sergipanos foi para o brejo. Onde está a raiz
do problema, ou seja, do “fracasso” dos nossos jovens? Tem que haver uma
explicação plausível. Por trás dos fatos há causas. E adiante dos
fatos, consequências.

“Pais,
mães e estudantes não podem ficar imersos na incerteza, na ansiedade,
na angústia, na agonia, esperando que os aprovados de fora do Estado não
se matriculem aqui”



Os
sergipanos não receberam conhecimentos suficientes, ou de modo
adequado, para vencer a concorrência alienígena? É hora de repensar. Em
Sergipe há boas escolas e bons professores? Claro que sim. É, pois, hora
de arregaçar as mangas e ir à luta. Mudar conceitos e metodologias.
Adequar o ensino aos padrões das provas do ENEM? Talvez. O que não
podemos é esperar por mais um fracasso, em 2014. Aí não dá! Pais, mães e
estudantes não podem ficar imersos na incerteza, na ansiedade, na
angústia, na agonia, esperando que os aprovados de fora do Estado não se
matriculem aqui, por conta de aprovações em seus Estados, para que os
excedentes possam ser chamados. Os excedentes, em sua maioria, são,
hoje, e serão, amanhã, sergipanos? E entrando como excedentes, os nossos
filhos serão vistos como “aprovados de segunda categoria”? Ou seja, só
entrarão porque os de fora rejeitarão as vagas que conquistaram? Não,
com certeza, ninguém quer essa pecha de “segunda categoria”. Nós
queremos que os nossos filhos não dependam dessas desistências.




Não podemos ignorar o vexame que passamos, ou seja, que os nossos filhos
não foram páreos para os não sergipanos em vários cursos. Levamos
poeira. Pronto. Tirem com um gancho. Outra coisa: de um modo geral, os
não cotistas que vieram de fora são os mais preparados estudantes do
ensino médio, nos seus respectivos Estados? É possível que não. Por que,
então, eles nos venceram? Bem, eu é que não tenho a obrigação de dar
respostas. Eu as quero. Há que se explicar tudo direitinho. Afinal, tudo
no mundo real tem explicação. E não adianta vir com malabarismos
fantasiosos, nem com palavreado impreciso ou até mesmo chulo. É preciso,
sim, tocar o dedo na ferida, não para magoar, mas para curar. As boas
escolas conscientes do seu valoroso papel saberão cuidar disso. Outras
poderão ficar na mesmice.




Por fim, ninguém (dentre quem de direito) deve cruzar os braços. Vamos
calçar as sandálias da humildade e vestir a roupa da determinação. Não
se deve permitir que na terra de Tobias Barreto, de Augusto Leite, de
Maria Thetis Nunes, de Luiz Antônio Barreto e de tantos outros valorosos
sergipanos, de ontem e de hoje, os nossos jovens sejam vistos como
perdedores. Não! Eu não posso aceitar essa situação para os nossos
filhos. Para eles, eu quero o melhor. Por favor, vamos dar isso a eles.




José Lima Santana (*)


(*) Advogado. Mestre em
Direito. Professor do Curso de Direito da UFS. Membro da Academia
Sergipana de Letras e do IHGSE. Ex-Professor do Ensino Fundamental e
Médio.


jlsantana@bol.com.br


Fotos: Imagem/Google


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